Torres Vedras

Moinho do Tio Pedro: património, memória e tradição em Campelos

31.07.2026

Na paisagem tranquila de Campelos, onde o vento continua a desenhar memórias sobre os campos, ergue-se um moinho de vento que é muito mais do que pedra, madeira e velas: o Moinho do Tio Pedro.

Símbolo das raízes de um território, da força das tradições e da ligação profunda entre gerações, o moinho de vento de Campelos confere à paisagem uma identidade rural única.

No alto da paisagem de Campelos, de velas abertas ao vento, paredes caiadas e estrutura tradicional em madeira e pedra, este moinho continua a guardar os sons, os gestos e os saberes de uma atividade que, durante séculos, marcou a vida das comunidades rurais.

Construído em 1989 pelas mãos de Pedro José Lopes, moleiro de profissão, o moinho nasceu carregado de identidade, orgulho e herança. Terá sido erguido mais por paixão do que pela procura de rendimento.

Filho de moleiro, Pedro cresceu entre o som das mós e o cheiro do cereal acabado de moer. Tinha apenas sete anos quando começou a acompanhar o pai, Domingos Tavares Lopes, nas longas jornadas ao moinho. Recordava, com emoção, as noites passadas junto ao vento, aproveitando cada rajada para trabalhar antes de seguir para a escola, na manhã seguinte.

Já adulto, e após a morte do pai, continuou a tradição familiar durante alguns anos. Porém, as dificuldades económicas acabaram por afastá-lo da profissão. Constituiu família, trabalhou como operário fabril e procurou outras formas de garantir o sustento da casa.

Um acidente que lhe reduziu a visão levou-o a reformar- -se precocemente, mas foi também esse momento que reacendeu um antigo sonho: voltar a ser moleiro.

Pedro “Moleiro” construiu então o moinho. Apesar de ser uma construção relativamente recente, incorporou algumas soluções mais modernas, como um piso superior com vigamento diferenciado e um turco que facilita a tarefa de picagem das mós. As escadas, em madeira, desenvolvem-se em dois lances descontínuos. Ainda hoje, os três pisos preservam a autenticidade e a simplicidade de um trabalho profundamente ligado à terra.

Aos poucos, os agricultores da Região voltaram a procurar o moinho para moer trigo e milho, mantendo viva uma tradição antiga em que o pagamento era muitas vezes feito através da maquia — a pequena porção de farinha que ficava para o moleiro. Hoje, o moinho pertence à Junta de Freguesia de União das Freguesias de Campelos e Outeiro da Cabeça, que o adquiriu em 2016 com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras. Mais do que património recuperado, tornou-se um espaço de memória e descoberta, abrindo portas a visitas escolares e iniciativas culturais que aproximam as novas gerações das tradições do território.

Entre o vento, a farinha e as histórias de outros tempos, o moinho de vento de Campelos continua a lembrar que as verdadeiras raízes de uma terra vivem nas pessoas que preservam a sua memória, mantêm vivas as tradições e passam adiante os saberes que o tempo nunca conseguiu apagar.

Publicado: 31.07.2026 - 17:02 horas
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