José Furtado Fernandes
07.05.2026
José Furtado Fernandes é um dos torrienses que foi deputado na Assembleia que aprovou a Constituição criada na sequência da “Revolução dos Cravos”. Os outros deputados constituintes torrienses, já falecidos, foram Afonso Moura Guedes e Alberto Avelino, sendo que um outro deputado constituinte, Bento Gonçalves, residia em Torres Vedras aquando da realização dos trabalhos da Assembleia Constituinte. Um dia antes de se assinalar os 50 anos da aprovação do referido documento, “pedra angular” da III República, e, propiciamente, na Praça 25 de Abril, a Torres Vedras esteve à conversa com José Furtado Fernandes, numa entrevista em que o mesmo abordou a sua experiência na Constituinte, mas também outros assuntos, como demais experiências políticas que viveu, o seu trajeto académico e profissional e a sua atual atividade como voluntário. Para José Furtado Fernandes os princípios e os objetivos definidos pelos “pais” da Constituição da III República relativamente a este documento têm sido cumpridos, embora haja ainda melhorias significativas a fazer, principalmente nos capítulos da Habitação e da Saúde. Já mais especificamente para o concelho de Torres Vedras, augura um futuro promissor…
Que memórias guarda da Assembleia Constituinte? Que importância teve para si a vivência dessa experiência?
Repare, no 25 de Abril de 1974, tinha 22 anos. Para uma pessoa com 22 anos, viver uma revolução, é fantástico. O que lhe posso dizer é que fiquei muito motivado para a participação política, como aliás aconteceu com a generalidade dos portugueses. Nas várias sessões de esclarecimento e comícios que foram feitos as salas estavam sempre cheias. Iam pessoas, por vezes com bebés ao colo, de todos os estratos etários. Depois de um regime autoritário de várias décadas, a promessa da Democracia foi feita pelo Movimento das Forças Armadas logo no seu programa, e era uma promessa apelativa para o povo português. Obviamente que aprovar uma Constituição não foi carregar num botão. Houve um processo turbulento, aliás, chamou-se a esse processo o PREC, o Processo Revolucionário em Curso, que teve várias vicissitudes, que não convém agora detalhar, mas conseguiu-se, após o 25 de Novembro, estabelecer uma base para redigir a Constituição. Houve todo um caminho que foi feito, que permitiu em Democracia votar a Constituição e, para quem se empenhou como eu, nesse processo, foi efetivamente algo extremamente gratificante.
Simultaneamente, desempenhou também funções num governo provisório liderado pelo almirante Pinheiro de Azevedo…
Exatamente. Eu pertenci a esse governo, tinha 24 anos - o que eu digo que só era possível numa Revolução -, como secretário de Estado da Formação Profissional, inserido no Ministério do Trabalho, que era presidido pelo capitão Tomás Rosa, indivíduo que pertencia à ala moderada do MFA. Foi uma experiência muito interessante e que teve, se quiser, dois capítulos: um até ao 25 de Novembro, ainda com muita turbulência; e outro após o 25 de Novembro, em que no Ministério do Trabalho já se podia ver alguma serenidade para se poder governar. Como calcula, o Ministério do Trabalho era o centro do vulcão. Passava-se pela Praça de Londres à noite, de madrugada, havia sempre luzes no Ministério do Trabalho. Eu vivi isso na primeira pessoa e foi de facto uma experiência muito interessante sentir o ambiente do sexto Governo Provisório, que foi dos governos provisórios o de maior duração.
E como foi o início da sua atividade cívica e política?
Eu comecei a sobressair na faculdade, nomeadamente a usar da palavra nas reuniões gerais de alunos.
Por outro lado, também enquanto estava na faculdade, dava aulas num colégio que existiu aqui em Torres, chamado Francisco Sanches, muito interessante, porque era um colégio que dava aulas noturnas para estudantes-trabalhadores. Eu era professor de Matemática e os alunos trabalhavam de dia e estudavam à noite e iam fazer exame ao Liceu. E a uma determinada altura pensámos: talvez fazer sábado à noite umas sessões sobre Economia, por exemplo. Uma das pessoas que foi convidada para fazer uma dessas sessões foi o engenheiro António Guterres. Ele veio cá, fez a sessão, e passado pouco tempo, nós fomos avisados de que os colégios eram para ensinar, e fomos ameaçados de que se fizéssemos mais sessões aos sábados à noite o colégio era fechado. Era tão simples como isto. Isto no “tempo da outra senhora”.
Mas vou-lhe contar mais situações que assumiram um caráter político e que vivi aqui em Torres. Fui escuteiro, ou melhor, sou escuteiro, porque quando somos escuteiros, somos para toda a vida. E pertenci ao agrupamento de Torres Vedras. Devo dizer que o exercício que eu tive enquanto escuteiro foi um exercício nada convencional. Nós tínhamos uma equipa cultural e uma equipa social. E chegámos a ir para o Alentejo visitar latifúndios. Portanto, uma imagem do escutismo que não era bem a dos acampamentos e isso também nos colocava um bocadinho na linha de fogo, de observação.
E também nesse tempo estive envolvido no cineclube. E era eu que escolhia os filmes. E sabia que esses filmes seriam depois “inspecionados”, também pela PIDE. Eu lembro-me que um dos filmes que escolhi uma vez foi o Vêm aí os russos, Vêm aí os russos, que era um filme cómico, mas em que aparecia a bandeira da União Soviética. E nessa sequência recebi também alguns recados para ter cuidado com os filmes que escolhia.
Bem, isto dá-lhe uma ideia de como se vivia em Torres Vedras naquele tempo.
E do período pós-Revolução, há histórias, peripécias, que recorde de forma particular?
Sim, há realmente coisas que lhe posso contar. Por exemplo, na campanha eleitoral para a Constituinte havia uma enorme turbulência nas sessões. E a primeira coisa que os oradores tinham de fazer era verificar qual era a “porta do cavalo” (risos). Entendendo-se por “porta do cavalo” exatamente o sítio por onde nós havíamos de fugir se fosse necessário. De referir que eu fui sempre eleito pelo distrito de Santarém. E devo-lhe dizer que o único sítio onde tudo correu serenamente foi em Fátima. Eu atribuo isto a um milagre (risos).
É devoto?
Sim, sou católico.
Era assim. As pessoas eram interrompidas, havia turbulência, mas nós até achávamos essas situações interessantes, embora fosse de ter sempre em conta onde era a “porta do cavalo”, não fosse surgir um problema qualquer que nos obrigasse a sair rapidamente.
Eram tempos de uma vivência completamente diferente. Era um país novo que estava a nascer…
Sim, estávamos num estado nascente.
E depois da sua passagem pela Assembleia Constituinte e pelo governo do almirante Pinheiro de Azevedo, continuou a ter atividade política?
Sim, continuei. Fui eleito deputado à Assembleia da República, eleito de novo por Santarém e pelo PPD. Em 1979 saí do PPD e, mais tarde, em 1983, voltei a ser deputado, aí num grupo chamado ASDI – Associação Social Democrática Independente, a que pertencia também o dr. Magalhães Mota, uma pessoa que foi muito importante no PPD, e fui então deputado no âmbito de uma aliança que fizemos com o Partido Socialista. Nessa altura eu era diretor de pessoal numa empresa em Setúbal, tentei conciliar essa função com a de deputado, mas não havia possibilidade. Preferi a carreira profissional. E efetivamente a ASDI cessaria a sua atividade e a partir daí nunca mais me filiei em partido nenhum. Portanto, eu não tenho filiação política há décadas. Claro que acompanho a vida política, gostei muito da experiência política que tive, ela foi para mim muito importante, até para o exercício das minhas funções profissionais enquanto diretor de pessoal. E estive desde cedo na minha vida profissional ligado às questões de trabalho. Eu fui, de resto, responsável nacional pelos sócio profissionais do PPD. E os sócio profissionais é exatamente a ligação entre o partido e os sindicatos. E depois em Setúbal fui diretor de pessoal, tendo no âmbito das minhas funções precisamente negociado com os sindicatos e com as comissões de trabalhadores.
E para além dessa experiência profissional numa empresa em Setúbal, teve outras experiências profissionais?
Sim, depois tornei-me consultor e formador, sempre na área das questões dos recursos humanos e do comportamento organizacional.
E terminou o seu curso?
Sim, terminei Economia e fiz também Direito. E ainda pós-graduei-me em Orientação e Mediação Familiar. Tirei Economia no atual ISEG, tirei Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e pós-graduei-me na Universidade Católica.
Há pouco referia o facto de ter trabalhado em Setúbal. Portanto, houve um período da sua vida em que esteve mais afastado de Torres Vedras, mas manteve sempre o contacto com a sua terra natal…
Sim, tinha cá os meus pais, vinha cá visitá-los. Aliás, a casa onde moro com a minha mulher em Santa Cruz era casa dos meus pais, embora tenha vivido em Torres Vedras até terminar o ensino primário, tendo depois estudado no Colégio Manuel Bernardes, em Lisboa. Na minha juventude, como anteriormente referi, estive ligado aqui em Torres aos escuteiros e ao cineclube. Quando estava na faculdade, como também já mencionei, dei aulas em regime noturno em Torres, e devo também mencionar que no período posterior à revolução fiz muitas sessões de esclarecimento no concelho de Torres. Com o Dr. Afonso Moura Guedes fui praticamente a todas as freguesias do Concelho. Depois, comecei a trabalhar em Setúbal, mas mantive sempre uma ligação a Torres Vedras por razões familiares.

Falando agora do futuro, tem projetos, desejos, que gostasse de concretizar nos anos de vida que tem pela frente?
Veja, hoje, o que eu faço, sendo aposentado, é voluntariado. Faço voluntariado com casais, também vou a lares de idosos onde desenvolvo um programa chamado “As Viagens Virtuais”, que é justamente um programa de estimulação cognitiva, em que passo powerpoints de cidades, de lugares, de interesse para pessoas institucionalizadas. Também faço orientação vocacional de jovens que estão hesitantes relativamente às suas opções escolares. Portanto, procuro, em voluntariado, e já tendo 74 anos, dar uma ajuda modesta à sociedade.
Voltando um pouco ao início da conversa, perguntava-lhe se considera que os princípios e os objetivos definidos pelos “pais” da Constituição de 76 para esse documento foram cumpridos?
Essa é uma muito boa pergunta. Olhe, se quiser uma síntese da Constituição eu diria o seguinte: a Constituição tem um desígnio, que é uma Democracia política, económica, social e cultural. Esta é uma síntese muito breve, mas que vai ao núcleo da Constituição. Vamos à Democracia política: sim, foi atingida, com direitos, liberdades e garantias, vivemos num país livre. Não há Democracias iliberais, isso não existe. Felizmente, em Portugal, temos uma verdadeira Democracia política. Quando entramos na parte da Democracia económica e social, aí há muita coisa ainda para realizar. Eu distinguiria o direito à Habitação e o direito à Saúde. Mas eu colocaria ainda assim um particular ênfase no direito à Habitação, que condiciona em muito a vida dos jovens. Os jovens vão, de facto, cada vez mais tarde para a sua casa, ficam cada vez até mais tarde na casa dos pais. Agora, atenção: melhorou-se muito nestes anos. Há quem queira dizer que era bom era no passado. Não, não, não. Houve reais melhorias a nível dos direitos económicos e sociais, mas há ainda muita coisa que falta fazer.
Chegando ao final da entrevista, perguntava-lhe se quer deixar alguma mensagem aos seus conterrâneos?
Bem, a minha mensagem é naturalmente de esperança no futuro, esperança nos órgãos autárquicos, de que vão corresponder às necessidades de quem vive no concelho de Torres Vedras, que é de facto um polo de desenvolvimento no Oeste e que tem todas as condições para continuar a ser atrativo, até porque proporciona ofertas de trabalho nos vários setores económicos. Eu auguro um futuro promissor para a minha terra, para Torres Vedras.



