Torres Vedras

Descoberta paleontológica inédita no concelho de Torres Vedras

23.07.2026

Imagem do local das escavações

Investigadores do Centro de Investigação em Paleobiologia e Paleoecologia (Ci2Paleo) da Sociedade de História Natural (SHN) estão, desde o início de junho, a desenvolver escavações em arribas do Concelho, em torno daquele que poderá ser o dinossauro mais completo alguma vez encontrado em Portugal. Trata‑se de uma descoberta de extrema importância e raridade.

A propósito deste achado, importa referir que o mesmo remonta a junho de 2025, quando, durante trabalhos de prospeção e inventário para o Sistema de Informação Geográfico Aplicado à Paleontologia, Luís Domingos, membro da equipa, identificou parte de um fémur que sobressaía numa arriba situada perto da Foz do Rio Sizandro. Os trabalhos de diagnóstico que se seguiram permitiram a recolha e salvamento deste elemento, então em risco de queda.

Bruno Camilo, diretor do Ci2Paleo da SHN e doutorando do Centro de Recursos Naturais e Ambiente do Instituto Superior Técnico, sublinha que “uma primeira observação da morfologia e dos caracteres patentes no fémur demonstrou de imediato que não estávamos perante um animal frequente, por ser bastante raro”. Durante o verão de 2025 foi realizada uma nova intervenção para melhor compreender o contexto da descoberta e verificar se existiriam mais elementos esqueléticos preservados. Nesta fase foram recolhidos cerca de 45 osteodermes, evidenciando que a descoberta correspondia a um dinossauro do grupo Anquilossauria, caracterizados por serem revestidos por placas ósseas (osteodermes) e espigões laterais.

“Para nós foi uma incrível surpresa, pois são dinossauros muito raros, por eventualmente no Jurássico terem existido populações muito reduzidas nos ecossistemas de então. Por outro lado, os fósseis que conhecemos destes animais são mais recentes, do Titoniano (fase terminal do Jurássico Superior), em particular Dracopelta zbyszewski, achado em 1957 na abertura da estrada do Barril para a Praia da Assenta. Ora, este achado encontra‑se numa unidade estratigráfica mais antiga, datada do Kimmeridgiano (que antecede o Titoniano), fazendo deste espécime o mais antigo conhecido da Europa continental. Animais deste grupo conhecem‑se no Jurássico Médio de Inglaterra, mas com esqueletos pouco completos”, afirma Bruno Camilo.

O local do achado foi protegido durante o inverno para evitar a destruição e erosão dos vestígios, tendo sido iniciados os trabalhos de escavação em área durante este verão. Aquilo que a equipa viria a descobrir apanhou todos de surpresa: “O dinossauro está cerca de 85% completo. Mas poderá estar ainda mais completo, pois pensamos que os dois membros anteriores estejam debaixo dos espigões e osteodermes, uma vez que o corpo se encontra de barriga para baixo — algo inusitado, pois em geral encontramos quase todos os dinossauros deitados de lado. O fémur direito está por baixo dos osteodermes e dos espigões, pois foi possível observá‑lo durante a escavação. Pode acontecer o mesmo com os membros anteriores; se assim for, podemos dizer que estará perto dos 95% de completude”, refere Bruno Camilo.

A equipa irá extrair o dinossauro num único bloco, uma vez que o esqueleto se encontra articulado desde partes do crânio até à ponta da cauda, com um comprimento de cerca de 2,50 metros. Os investigadores explicam que os dinossauros da respetiva espécie eram relativamente pequenos no Jurássico e que este espécime, em particular, poderá corresponder a um indivíduo juvenil a subadulto.

A campanha de escavações deste ano integra 22 investigadores da SHN e estudantes provenientes de Portugal, Croácia, Itália, Estónia, Rússia, Holanda, Bélgica, Alemanha e Países Baixos. Os trabalhos de campo irão decorrer até ao final de setembro. A este propósito, é de referir que a equipa recebeu recentemente no local das escavações a visita dos vereadores da Câmara Municipal, Diogo Guia e Rui Estrela.

 


Publicado: 23.07.2026 - 11:47 horas
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