Apresentação do livro “Um Século Rampa Acima” no Museu do Ciclismo Joaquim Agostinho
26.10.2026
O Museu do Ciclismo Joaquim Agostinho foi, no dia 10 de outubro, palco da apresentação do livro Um Século Rampa Acima: Uma História Popular e Política do Ciclismo, da autoria do escritor Ramon Usall, numa coorganização com a editora Fora de Jogo.
A tarde começou com uma visita orientada à exposição temporária dedicada à prova lisboeta "Subida da Rampa do Vale de Santo António", conduzida pelo Presidente da Associação Desportiva e Recreativa "O Relâmpago", Euprémio Scarpa, permitindo aos presentes mergulhar no acervo fotográfico, documental e audiovisual do projeto.
Seguiu-se uma tertúlia e debate fluido, cruzando o português, o espanhol e perspetivas ibéricas. O painel central contou com as intervenções do autor catalão, Ramon Usall; do sociólogo e editor da Fora de Jogo, Vasco Ramos; e do antigo ciclista e membro do Conselho Consultivo do Museu do Ciclismo, Leonel Miranda.
A partir da obra de Ramon Usall, o debate abriu portas a uma viagem fascinante pelos cruzamentos entre o ciclismo e a história sociopolítica mundial e ibérica. Foram evocados paralelos surpreendentes, desde o nascimento das grandes voltas em França - profundamente ligadas a tensões jornalísticas e políticas da época, como o célebre caso Dreyfus e a rivalidade entre jornais de páginas verdes e amarelas -, até ao desenho geopolítico dos percursos das grandes provas (como o simbolismo de o Tour cruzar a Alsácia e a Lorena ou as contingências históricas da criação da Vuelta a España sob o signo da Segunda República e de contextos de propaganda).
Ao longo da conversa, o autor Ramon Usall sintetiza a ideia de que "há uma mitologia ao redor da bicicleta como meio de transporte que é muito interessante porque, no fundo, é a explicação da história da humanidade". A este propósito, o membro honorário do Comité Diretor da União Ciclista Internacional (UCI), antigo presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo (1992-2012) e membro do Conselho Consultivo do Museu do Ciclismo, Artur Lopes, destacou a dimensão simbólica do próprio equipamento municipal: "Este museu e a ligação da história e da política à própria evolução do ciclismo tem o nome de uma pessoa [Joaquim Agostinho] que é o exemplo arquivado de um pouco da história de Portugal antes da revolução".
Naturalmente, a figura de Joaquim Agostinho esteve no centro das memórias partilhadas. Através dos testemunhos na primeira pessoa do antigo ciclista Leonel Miranda, que possui uma forma única, genuína e singela de reviver memórias sobre um tempo singular do ciclismo português, evocou-se a génese humana e operária do campeão torriense. O homem que pedalava e que se ergueu como um ícone transversal, acarinhado por adeptos de todos os clubes, foi evocado pela sua legendária capacidade de recuperação, pela força surpreendente e pela descontração única que o caracterizavam.
A discussão debruçou-se ainda sobre as singularidades do ciclismo em Portugal: a antiguidade e dureza da clássica Porto-Lisboa conquistada por Leonel Miranda na edição de 1974, a importância da Volta a Portugal face ao contexto ibérico, e a forma como os grandes clubes ecléticos (Sporting, Benfica e Porto) moldaram a paixão popular. Foi também tempo para mencionar provas de rampa. Leonel Miranda, que fora Campeão Nacional de Rampa em 1966 e 1968, falou da sua participação na prestigiada Escalada a Montjuïc, em Barcelona, ao lado de alguns dos maiores nomes do ciclismo mundial da década de 1970, como Eddy Merckx, Jacques Anquetil, Felice Gimondi, Luis Ocaña, Raymond Poulidor e o próprio Joaquim Agostinho.
A riqueza do debate beneficiou ainda de contributos vindos da plateia, onde estiveram igualmente presentes o presidente da Academia Joaquim Agostinho e diretor da União Desportiva do Oeste, António Rocha, bem como representantes da editora Fora de Jogo e da Associação Desportiva e Recreativa "O Relâmpago".
Esta tarde passada no Museu do Ciclismo Joaquim Agostinho provou, uma vez mais, que o desporto e o património vivem da partilha viva de memórias e de leituras partilhadas, reafirmando o ciclismo não apenas como uma competição desportiva, mas como um autêntico espelho da identidade e da cultura popular.




