Torres Vedras

Mar à Deriva

13.11.2020

A revista municipal [Torres Vedras] esteve à conversa com Lídia e Manuel Nascimento, um casal que há vários anos recolhe lixo nas praias do Concelho. Em 2019, decidiram criar uma página nas redes socias, com o nome “Mar à Deriva - Adrift Sea”, onde partilham fotografias e vídeos do lixo que encontram.

 

Há cerca de 20 anos, quando começaram esta jornada, as preocupações ambientais não estavam na ordem do dia. O que é que vos levou a ter uma maior sensibilidade para este problema?

Manuel Nascimento (MN): De certa forma, quem me sensibilizou foi a minha mulher, porque eu não tinha esse conhecimento. […] O lixo era algo indiferente para mim, fazia parte do areal. […] Via-a a apanhar lixo e às vezes até questionava: “mas porque é que estás a apanhar o lixo se não foste tu que o deixaste? Se não fomos nós que o deixámos aqui?” Ela dizia para mim: “se está aqui nós temos que o apanhar, não faz parte do areal.” […] A partir daí tornou-se um hábito e nós cada vez que íamos à praia recolhíamos o lixo.

A Lídia foi a grande responsável pelo início desta jornada. O que é que fez com que tivesse esta consciência que motivou o Manuel a juntar-se a si?

Lídia Nascimento (LN): Eu sempre encarei o lixo como não fazendo parte do meio ambiente. Era uma coisa que não pertencia ali. Desde criança que não deitava lixo fora e se visse apanhava. E também porque ao longo dos tempos fui vendo muitos animais mortos pelo lixo: ou pelos fios de pesca, ou plástico. Isso não acontece só agora, já acontece há bastante tempo. É claro que agora o problema é muito mais grave, há muito mais lixo, aparece muito mais lixo e aparecem muitos mais animais mortos. E agora sabe-se exatamente o quão prejudicial é para o meio ambiente. Mas isso sempre fez parte de mim, mesmo nesta praia, onde nós estamos hoje, eu já apanhava lixo com 9 anos.

O aumento da quantidade de lixo é algo que têm notado desde que começaram a fazer estas recolhas?

LN: Sim, nota-se muito. […] Desde o inverno de 2018 - 2019, a coisa piorou bastante, pelo menos aqui na nossa zona. Começou a aparecer muito mais lixo deixado pelo mar, não pelas pessoas. Todas as marés cheias passaram a trazer lixo - foi um bocadinho assustador - e foi por isso que decidimos começar a partilhar com as outras pessoas. Todas as marés cheias passaram a trazer lixo - foi um bocadinho assustador - e foi por isso que decidimos começar a partilhar com as outras pessoas.

Começou a aparecer muito mais lixo deixado pelo mar, não pelas pessoas. Todas as marés cheias passaram a trazer lixo - foi um bocadinho assustador - e foi por isso que decidimos começar a partilhar com as outras pessoas.

Em 2019, criaram a página “Mar à Deriva - Adrift Sea” onde partilham fotografias, vídeos e outros conteúdos relacionados com o lixo que encontram. Inicialmente, qual é que era o vosso principal objetivo?

LN: O objetivo foi mesmo chamar a atenção das outras pessoas, porque nem toda a gente tem a oportunidade que nós temos. Nós moramos ao pé do mar, portanto sabemos o que se passa diariamente a nível do mar e da praia. […] Estamos perante um problema e é preciso arranjar soluções para esse problema e quanto mais gente tiver conhecimento da realidade, acho que mais fácil é conseguirmos todos juntos arranjar alguma solução.

Atualmente, entre Facebook e Instagram, têm cerca de 10 mil seguidores. Que feedback é que costumam receber?

MN: O feedback é muito bom e é muito reconfortante para nós o que as pessoas escrevem. É o que nos dá mais alento e mais força para esta luta em que nós estamos envolvidos. Acho que muitas das pessoas, de certa forma, já estavam sensibilizadas com o assunto e até dentro do próprio assunto do que é o plástico. Cada vez mais aparecem pessoas que nos dizem que os próprios filhos - o que é muito bom - já fazem essa apanha com os pais e quando veem alguém a deixar lixo até reclamam com as pessoas. Isso é muito bom! É essa a nossa intenção: chegar às pessoas e, de certa forma, sensibilizar as pessoas e dar a conhecer o que é que se está a passar. Porque a praia que nós estamos a ver hoje, não é a praia que nós vemos de inverno. É totalmente diferente. As praias de verão são muito intervencionadas pelos tratores da Câmara [Municipal de Torres Vedras], o que é um trabalho excecional. De inverno isso é reduzido e aí aparece mais lixo. Devido às correntes, devido a muitos fatores. E nós tentamos transmitir isso para as pessoas, dar a conhecer. Por isso é que criámos a página, para mostrar aquilo que nós estávamos a ver. […]

Para além de notarem uma maior consciência por parte das pessoas, sentem que há uma mudança de comportamentos?

LN: Eu acho que sim e especialmente agora, porque há aqui uma parte muito importante que é a comunicação social. Ultimamente, a comunicação social tem-se dedicado ao assunto e isso está a fazer com que muita gente mude os comportamentos. Aqui na nossa zona, por exemplo, não temos, nem nunca tivemos, um problema grave das pessoas que vêm à praia deixarem lixo, mas noutras zonas, sim. […] Nos últimos tempos, eu noto uma mudança já em relação a algumas pessoas, acho que estão mais conscientes do que se está a passar.

O Manuel foi responsável por um episódio que projetou bastante o vosso trabalho. Encontrou, recentemente, numa praia de Peniche, vários quilos de lixo dos anos 80. Como é que fez essa descoberta, até porque grande parte do lixo estava enterrado?

MN: […] Comecei a limpar um pouco a areia e a tirar algum plástico que lá estava e quanto mais cavava mais aparecia. Nós quando descobrimos isso ficámos estupefactos pela quantidade de plástico que ali estava enterrado. Mas não foi só aquela situação, por norma nós encontramos, naquela zona de Peniche, muitos cabos enterrados a 30, 40, 50 centímetros de profundidade. […] Mas aquele achado pela altura de que era - 1987 e 86 - e quantidade em si. Aquilo viu-se mesmo que alguém abriu ali um buraco e depositou ali. Fez daquilo um aterro.

Qual é o objeto que encontram com mais frequência nas praias?

MN: […] Os cotonetes são um dos grandes problemas que se encontram nas praias, porque são aos milhares. Na nossa costa, nas nossas praias, encontram-se aos milhares. Um cotonete não é para jogar na sanita, claro que depois chega à ETAR e a ETAR não tem capacidade de retenção. […]

A Lídia está a pensar em outros objetos que tenham encontrado?

LN: […] Sem ser as artes de pesca, que é o que encontramos mais - costumamos dizer que se calhar 90% do que encontramos são artes de pesca -, temos o problema dos cotonetes e do esferovite. […] O esferovite é uma praga, mesmo. Aliás nós achamos que uma das primeiras medidas que devia ser tomada era a proibição do esferovite no mar. O esferovite é plástico, desfaz-se em milhões de bolinhas, que são comidas pelos animais que pensam que é alimento. Portanto, confundem com ovos de peixe. Chegamos a ter durante o inverno aquilo que nós chamamos de marés brancas, ou seja, parece que nevou na praia, e é tudo esferovite. Isso para nós é um desespero porque nos sentimos completamente impotentes. Não conseguimos apanhar aquele esferovite todo. […]

Acontece inclusivamente aqui em duas praias do Concelho…

LN: Sim, acontece bastante na Praia da Mexilhoeira e na Praia da Vigia. E qual foi o objeto mais surpreende que já encontraram? LN: O que nós gostamos de encontrar são os bonequinhos dos anos 60 e 70, que eram brindes dos gelados. Eu considero que isso serve para aliviar um bocadinho a tensão, porque normalmente encontramos esses bonecos junto a muitos microplásticos e os microplásticos são um grande problema porque são difíceis de apanhar. […] No entanto, o objeto mais estranho ou que nunca esperei encontrar foi um frasco de Cloroquina. Tendo em conta a altura que estamos a atravessar, a Cloroquina tornou-se famosa. Nós encontrámos um frasco de Cloroquina produzido pelo exército francês para os soldados que vão para terrenos inóspitos. Portanto, tomam a Cloroquina para prevenir e tratar a malária. E estava um frasco na praia.

Encontraram durante este período em que já estávamos a ser afetados pela pandemia…

LN: Sim, foi há mês. […] Já não dá para ver a data de validade mas pensamos que tenha uns anos, não tem a ver com isto [atual pandemia], só que foi curioso encontrar nesta altura.

E o lixo que encontram, que fim é que tem? Pode ser reciclado?

MN: O lixo que nós apanhamos nas praias por norma não dá para reciclar, porque todo ele está contaminado. Se nós vamos colocar esse lixo no ecoponto correto, vamos contaminar também, de certa forma, todo o lixo que se encontra lá dentro. O que é que nós fazemos: tudo o que é garrafas, nós metemos de parte e metemos no ecoponto. Todo o lixo que está contaminado, nós metemos no contentor do lixo normal. [...]

Sentem que podia haver uma solução para este lixo não acabar no contentor do lixo indiferenciado?

LN: Nós gostávamos muito que houvessem contentores próprios para depositar o lixo marinho, porque, lá está, para nós não é conveniente estar a misturá-lo com o outro lixo. O que nós fazemos, e que se calhar outras pessoas também poderiam fazer, caso existissem contentores próprios em alguns locais, […] é reutilizar algum lixo. […] Nós encontramos muitos alcatruzes, que são armadilhas para apanhar polvos. São feitas em plástico, antigamente eram em barro e eram objetos lindos e não prejudicavam o ambiente. Agora são feitas em plástico e é plástico preto que não é reciclável sequer. Então nós utilizamos esses alcatruzes para fazer uns cinzeiros que colocamos junto às praias, e tem sido um sucesso no aspeto das pessoas os utilizarem. […] Se calhar se houvesse um contentor próprio até as próprias escolas ou artistas podiam vir a utilizar esse material, dar-lhe algum uso em vez de ir parar simplesmente a um aterro ou ser queimado e produzir gases tóxicos.

Falando desse projeto dos cinzeiros, em que praias de Torres Vedras podemos encontrar um cinzeiro feito por vocês?

LN: Temos na Praia do Navio, temos na Praia do Mirante, temos entre as praias do Navio e Mirante, temos na Praia Azul e oferecemos um à associação cá de Santa Cruz [Associação Sealand Santa Cruz] para colocarem sempre que há um evento na praia. […]

Há pouco falou na questão nos animais mortos. Deparam-se com situações em que é evidente que a causa da morte desses animais está relacionada com a poluição dos oceanos?

MN: Sim, 90% dos animais, sim. Alguns que nós encontramos, especialmente as gaivotas, vê-se que algumas é de causas naturais. Mas a maior parte dos animais que nós encontramos, a causa da morte é o plástico nos oceanos.

Mas a maior parte dos animais que nós encontramos, a causa da morte é o plástico nos oceanos.

No fundo situações em que é evidente que a morte teve a ver com o lixo…

LN: Sim, a pior parte é essa. Porque ao lixo nós já estamos habituados, o lixo não nos faz chorar, mas os animais mortos, sim. […] Por exemplo, os alcatrazes não vêm à costa se estiverem bem, se estiverem saudáveis. Até hoje nunca vi nenhum alcatraz vivo, mas já vi muitos mortos. Desses mortos dá para ver qual foi a causa: têm o bico enrolado em fios de pesca. […] E são animais enormes, muito maiores do que gaivotas, são lindos, lindos, lindos e só querem viver em paz no mar. […]

E para o futuro, quais é que são os vossos objetivos?

LN: […] Somos considerados uma organização informal e queremos continuar assim. O objetivo – e está a tornar-se realidade e estamos muito contentes com isso - é mais gente fazer o mesmo. É claro que quando uma associação organiza uma limpeza de praia é muito importante os voluntários comparecerem, porque é isso que proporciona uma limpeza de praia. Se não houver voluntários, não se faz. Mas as pessoas individualmente também o podem fazer sem ficarem sempre à espera que haja algo organizado. O nosso objetivo é inspirar as pessoas cada vez mais a fazer isso. É claro que haveriam alguns projetos que poderíamos fazer - e temos várias ideias -, se tivéssemos algum apoio. […] Mas não pretendemos mudar, porque o que fazemos é nos nossos tempos livres e com gosto. É o que nos apetece fazer. Não é nenhum sacrifício, é natural. Se não estamos a trabalhar, vamos para a praia. Basicamente é isso que acontece. Estando na praia, apanhamos lixo! [risos]

E todos nós agradecemos o vosso trabalho e esperamos que motive outras pessoas a fazerem o mesmo. Para terminar, questionava se têm algum apelo que gostassem de fazer.

MN: Gostaria muito que […] valorizassem este planeta, que é único. Há só um, não há mais. A ideia de ir para Marte é um bocadinho complicada. [risos] Se nós não tomarmos medidas urgentemente acredito que isto daqui a uns anos desaparece. E depois vamos nos lembrar de não ter dado aos nossos filhos, aos nossos netos e a outras gerações vindouras a oportunidade de puderem apreciar o que temos de belo no nosso planeta.

Se nós não tomarmos medidas urgentemente acredito que isto daqui a uns anos desaparece.

E a Lídia, gostava de acrescentar mais alguma coisa?

LN: Sim, nós falamos sempre muito dirigido ao cidadão comum, mas o meu apelo vai para os decisores. Porque a parte do cidadão comum é só uma das partes. Há outra parte que é tão ou mais importante que é a parte dos decisores. Acho que está na altura de terem coragem para tomar as medidas que têm mesmo de tomar e que sabem já há algum tempo que as tem de tomar. Mas parece que é sempre tudo adiado ou fica para 2020 e não sei quantos… Nós não estamos numa altura em que se possa dar passinhos pequeninos, temos de correr! Está na altura de correr para haver alguma esperança que se mantenha algo. Para algumas espécies já não há hipótese, mas para outras ainda há. Mas para isso tem que ser agora, tem que se agir agora. Portanto, o meu apelo é que os decisores tenham a coragem necessária para tomar as medidas que têm mesmo que ser tomadas.

Nós não estamos numa altura em que se possa dar passinhos pequeninos, temos de correr! Está na altura de correr para haver alguma esperança que se mantenha algo.

Publicado: 13.11.2020 - 19:37 horas
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