Torres Vedras

José Manuel Francisco

02.01.2017

José Manuel Francisco é o rosto que está por detrás da dinâmica do atletismo em Torres Vedras. Recentemente ele e todos os amantes deste desporto no concelho tiveram um presente há muito aguardado que foi precisamente a criação de uma pista de tartan no Paul. À [Torres Vedras] José Manuel Francisco abordou a criação deste equipamento, entre outras temáticas, como o atual panorama do atletismo no concelho e no país, a evolução do histórico Corta-Mato dos Matos Velhos, evento por si criado, o seu percurso de vida, pessoal, profissional e desportivo, e a sua participação num célebre golpe militar que ficou conhecido para a História como a “Revolução dos Cravos”…

 

Começava por lhe perguntar a importância que teve a construção da pista de atletismo do Paul para o atletismo no concelho, sendo que é um dos grandes dinamizadores da modalidade no mesmo?

É de relevante importância. Não só porque corresponde a um trabalho técnico de várias disciplinas que o atletismo trata, mas também porque temos muitos praticantes, falamos de centenas de praticantes da modalidade. Este era um equipamento que era muito desejado há dezenas de anos, para aí há 23 anos que já se vinha falando deste equipamento, que vem seguramente colocar mais próximo da realidade alguns valores que temos no atletismo torriense e que são muitos.

(…) com a oferta desta pista de atletismo, não tenho dúvida nenhuma que a promoção na modalidade vai ser maior (…)

Acha que a construção deste equipamento vai ser importante para estimular ainda mais a prática do atletismo no concelho que de resto tem vindo a crescer em termos de atletas e equipas envolvidas?

Claramente, disso não tenho dúvidas. Vai ser um fator muito importante no desenvolvimento futuro da modalidade no nosso concelho e na nossa região e principalmente a partir do momento que as escolas tirarem partido e aproveitamento deste equipamento. A nossa região está de resto situada num espaço fantástico, estamos junto ao Atlântico, estamos encostados à serra, estamos aqui num foco de microclima, que é muito importante para um atleta desenvolver o seu espaço de capacidades, para aquilo que tem a ver com a sua máquina pulmonar e também com aquilo que é a oxigenação do raciocínio, o poder de capacidade da mente.

Como tem sido a evolução do atletismo no concelho nomeadamente através dos campeonatos municipais? É um processo que tem acompanhado de há vários anos, décadas até, a esta parte. Tem sido um movimento em crescente contínuo?

Sim, em crescente contínuo. Nós começámos o campeonato há 18 anos em terra batida. Ainda não o fizemos em pista de tartan, havemos de fazê-lo agora concerteza em 2017, mas começámos nem com uma centena de atletas e nos últimos campeonatos já tínhamos 400 atletas de 8 equipas, com uma oferta que não era só para o concelho. Hoje, com a oferta desta pista de atletismo, não tenho dúvida nenhuma que a promoção na modalidade vai ser maior.

José Manuel Francisco

Acha que o atletismo tem futuro num momento em que tem de concorrer com desportos mais mediáticos e que são mais atrativos para a juventude?

No atletismo como em todas as modalidades há momentos de picos. De facto atravessamos uma fase de menos esplendor, não apareceram valores, houve uma grande estagnação, não há Carlos Lopes nesta altura, nem Rosas Motas, nem Auroras Cunhas, não há Antónios Leitões, não há esses atletas, mas vão aparecendo outros. A pista ao nível técnico rapidamente vai criar valores e recordo que por exemplo Torres Vedras tem atualmente atletas, iniciadas e juvenis, campeãs nacionais da velocidade e isso dá-nos uma perspetiva de futuro. Relativamente ao meio-fundo e fundo e mesmo corta-mato, aí temos uma situação de facto muito mais complicada e importa aí que os nossos responsáveis pela modalidade possam perceber que é preciso tomar medidas diferentes daquelas que se veem tomando.

Esteve na génese do Corta-Mato dos Matos Velhos que completou recentemente a sua 35.ª edição. Fale-me um pouco do processo de criação deste evento que é uma referência em termos nacionais no atletismo. Como tem evoluído, que balanço faz neste momento dessa prova?

O Cross de Torres Vedras, antigo Corta-Mato dos Matos Velhos, nasceu aqui bem pertinho de nós, numa povoação que tinha 71 habitantes, em 1981, depois de ter saído com o já falecido Mário Dias do Boavista-Olheiros, ele que era de Matos Velhos, tendo na altura colocado a hipótese ao meu colega de aí fazer um corta-mato. Ele disse-me que seria difícil porque não havia condições no terreno para levar a cabo um corta-mato nesse local, mas achei ainda assim que era um desafio, e avançámos com um primeiro corta-mato de Matos Velhos em que tivemos 156 participantes. O Fernando Miguel ganhou nesse ano, e a Idalina Santos do Boavista ganhou em femininos, foi algo que nos deixou ali também uma sensação de termos margem de progressão. Então, no ano seguinte, em 82, voltamos a ir para a frente com o Corta-Mato dos Matos Velhos, já tivemos 400 e tal participantes, e percebemos logo ali que tínhamos de facto pano para mangas. O Fernando Miguel repete a vitória, a Idalina Santos repete a vitória, e começou-se a criar uma atmosfera a nível nacional muito interessante. No entanto em 1983 levamos um grande golpe com a intempérie a 8 dias do Cross quando tínhamos praticamente toda a hotelaria no concelho por nossa conta. Em 84 voltamos ao terreno, não desmorecemos, e é lançada aí porventura a carreira dos manos Castro, que fazem o 1.º e o 2.º lugar. A Aurora Cunha ganha aí pela primeira vez e depois por três anos consecutivos. Em 85 o Carlos Lopes ganha, a Aurora Cunha repete a vitória, e percebemos que estávamos num âmbito muito para além daquilo que era o imaginário. E em 85 temos 4 mil participantes. Numa aldeia com 71 habitantes é qualquer coisa de confuso. É quando eu começo a pensar com o Mário Dias em transportar o Cross para Torres Vedras. Chamamos a Câmara para parceiro, e chamamos também a UDO. Mais tarde, o Cross, pela sua qualidade, é proposto por mim à associação europeia de atletismo para que figurasse no circuito europeu de cross. Andámos três anos a lutar por uma vaga e há uma prova espanhola que num ano não se realiza e nós ocupamos imediatamente essa vaga, entramos na associação europeia de atletismo na área dos crosses e figuramos lá durante alguns anos. Mas o orçamento era de facto muito elevado, a Câmara Municipal não tinha condições de continuar com um subsídio tão elevado e tivemos de passar a prova para grau nacional. Hoje a prova continua a ser de seleção para o campeonato da Europa, mas gostávamos um dia de voltar à associação europeia e eu gostava que por uma vez o Cross integrasse o circuito mundial, como faz as Açoteias.

(...) gostava que por uma vez o Cross integrasse o circuito mundial (...)

Esteve também ligado a outros eventos na área do atletismo bem como na do ciclismo, de âmbito internacional, onde foi nomeadamente speaker e organizador…

Um dos privilégios que tenho é poder dizer com toda a alegria, com todo o fervor, que fiz a locução para a Federação Portuguesa de Atletismo de vários campeonatos nacionais quer de pista quer também de corta-mato, fiz a locução da Taça dos Clubes Campeões Europeus quando foi em Oeiras e fiz a locução do campeonato do mundo de corta-mato quando foi em Vilamoura. Ao nível do ciclismo também em campeonatos de vária ordem, voltas a Portugal, quer de cadetes, quer de juniores, quer de masters, várias provas internacionais como a Volta ao Algarve em bicicleta, que é a primeira prova do calendário nacional ou a Volta ao Minho e a Terras de Santa Maria da Feira. Mas de facto o que me deixou num ponto muito alto foi fazer a locução da Vuelta quando se lançou a Expo, e também o Campeonato do Mundo de Ciclismo quando decorreu em Lisboa, na Radial de Benfica. Calhou-me por sorte fazer a locução dos contra-relógios, algo que vivi extraordinariamente porque estive de facto ao lado das grandes estrelas mundiais de ciclismo a relatar os seus feitos.

Recuando um pouco também na sua história, perguntava-lhe quando começou a sua ligação ao desporto?

Eu joguei futebol no Torreense durante cinco anos, tive uma lesão grave no joelho, no ligamento cruzado, fui operado e a minha recuperação ao contrário do que acontece hoje, em que há equipamentos de fisioterapia e de ginásio, foi feita em areia do mar, caminhando, correndo, entrando na água, e também fazendo footings no pinhal. Passados meses, a finalizar um jogo de treino, o meu já falecido treinador da altura, Mário Varatojo, chamou-me para jogar, e com o terreno pesado que estava, acabei por num lance de bola dividida me magoar no mesmo joelho. Não quis ser operado mais vez nenhuma, voltei a fazer recuperação no pinhal, no mar, na areia, e senti que tinha uma capacidade de oxigenação fantástica. É nessa altura que na Praia de Santa Rita há uma brincadeira de atletismo e eu participo. Participo e ganhei. E achei que tinha condições de experimentar outro tipo de competição. Sou desafiado a ir a uma prova de 10 mil metros a Águeda e ganho. Ganhando, achei que tinha condições de ficar no atletismo e não no futebol. E depois de ter ido três anos seguidos a Águeda e ter ganho e de fazer uma maratona com um tempo fantástico, tenho uma lesão e volto a ter um problema no joelho. É então que penso em treinar gente do Boavista-Olheiros que na altura estava a iniciar essa atividade. Fico ali a treinar dois anos e meio, transitando depois dois anos e meio mais para a Casa do Povo do Maxial, depois dali para o Benfica onde estou seis anos e depois para o Belenenses durante três anos. Cansei-me de Lisboa e apresento mais tarde um projeto ao Torreense, ao Dr. Joaquim Cruz, presidente da direção de então, um projeto de três anos que é aceite. Inicio esse projeto com a ideia de relançar a modalidade que estava parada desde 63/64 ainda com o saudoso Evaristo Silva. Em 90 essa atividade foi relançada, abandonando outros projetos que tinha em mente e vim ficando, ficando, e lá estou hoje. Há 26 anos que estou no Torreense e portanto no atletismo há 40 como treinador e há 44 como amante da modalidade.

Para além disso é árbitro de atletismo…

Sim, além de ter o curso de treinador de atletismo, tenho o curso da academia olímpica portuguesa. Sou o 99.º membro da Academia Olímpica Portuguesa . O que é a Academia Olímpica Portuguesa? É um braço do Comité Olímpico de Portugal que é por sua vez quem absorve todas as federações e eu na vertente do atletismo estou encaixado nessa academia. Ainda há pouco tempo foi concluído um curso em Torres Vedras, o único que até ao momento aconteceu, de juízes estagiários de atletismo, em que tivemos 24 formandos, quase todos com aproveitamento, e é algo que há-de vir até a dar resposta à competição oficial que se fará aqui na pista do Paul.

Anteriormente, já há algumas décadas atrás, fez carreira militar e teve até envolvimento na “Revolução dos Cravos”. E fazia-lhe precisamente a pergunta clássica: onde é que estava no 25 de abril?

Eu assentei praça em 73, no campo de tiro da Serra da Carregueira, depois sou transferido para a especialidade do serviço de intendência, para o segundo grupo de companhias de administração militar, na altura situado onde hoje é a Universidade Lusófona, em Lisboa. Tirei a escola de cabos, tive um dos três melhores aproveitamentos o que me permitiu não ir para o Ultramar e escolher a unidade para onde queria ir e decidi ficar onde estava. Entretanto vem o 25 de abril, eu estou nessa unidade, e perto das 4 da manhã somos chamados a reunir na parada, em completo silêncio. Entramos em viaturas, não sabíamos para onde íamos, somos portadores da nossa arma e de três carregadores de munições de G3, e é nos dito que quando uma chaimite estivesse em cima da 2.ª Circular, virada para o quartel, podíamos avançar para ocupar os estúdios da RTP na Alameda das Linhas de Torres. E é isso que acontece, somos 120 homens que vamos dali para ocupar a RTP e aí nos mantivemos durante largo tempo, estou a falar de 3 meses, substituídos de quando em vez pelos comandos. Esse percurso até se consolidar o 25 de abril foi sendo sempre feito em “operações stop”. A tensão era muito forte, era muito grande. E a situação foi assim vivida durante muito tempo. Entretanto sou apontado para ser colocado em Mafra, mas tenho alguma dificuldade em perceber que tinha de ir lidar com armas, sou colocado na manutenção militar e regresso para a minha unidade, em Torres Novas, para onde foi então, sendo que estava em comissão liquidatária. Sou depois colocado na Póvoa do Varzim onde estava o primeiro grupo de companhias de administração militar, e depois surge encontrar um capitão amigo, que estava no Lar de Veteranos Militares, hoje CAS de Runa, e sou convidado a vir para aí. Sou então colocado na dotação do pessoal de Runa e assim mantive-me no exército durante 18 anos. É ainda em Runa que o vereador do Desporto, Francisco Manuel Fernandes, me convida, sabendo que eu era um homem do desporto, para reforçar o setor do Desporto da Câmara Municipal de Torres Vedras, atendendo também aos equipamentos que tinham surgido pelo concelho depois do 25 de abril e aos quais era necessário dar alguma segurança. Estou a falar dos campos de futebol. Pedi então dispensa ao Ministério da Defesa para ir para o Ministério da Administração Interna, é feita a requisição pelo segundo ano e pelo terceiro ano e depois tive de fazer uma opção e é aí que transito completamente para a Câmara Municipal.No entanto gostaria de deixar muito claro a excelente escola de vida que o serviço militar me proporcionou, essencialmente nos valores da seriedade, responsabilidade e respeitabilidade!

José Manuel Francisco

Recuando um pouco mais no seu percurso de vida, e à sua infância, no Outeiro da Cabeça, e também à sua juventude, quando trabalhou na área da restauração, antes de seguir a carreira militar, perguntava-lhe como viu a evolução do concelho ao longo das últimas décadas, nomeadamente em termos materiais…

Nasci em 29 de março de 1952 no Outeiro da Cabeça, na altura freguesia do Maxial. Fiz a minha formação escolar no Alentejo, com exames no Montijo. Tenho a 4.ª classe e a admissão feita. Vim para o Outeiro da Cabeça ainda jovem, com 9 anos, e aos 10 já estava a trabalhar numa cerâmica de tijolo, onde estive 2 anos. Aos 12 anos vim trabalhar para Torres Vedras, para a indústria hoteleira, onde estive também vários anos até ir para o serviço militar onde de alguma forma já estive ligado ao desporto. É de onde entro na Câmara, e aos 50 anos fico na condição de aposentado por já ter os 36 anos de serviço, o que permitiu me libertar também para outros projetos que tinha e tenho em mente e que desenvolvi de alguma forma. Relativamente àquilo que é uma perspetiva futura e como eu entendo e leio a progressão que veio a ter o concelho de Torres em equipamentos, tem dado uma resposta enorme e se regressarmos agora 40 anos como o Poder Local está a discutir, de facto nós estávamos completamente parados, não tínhamos quase oferta nenhuma. Torres Vedras deu passos muito significativos em todo o seu equipamento quer do desporto quer da cultura.

(…) Torres Vedras deu passos muito significativos em todo o seu equipamento quer do desporto quer da cultura (…)