Torres Vedras

Embaixadora de Israel visitou o património judaico de Torres Vedras

27.06.2017

A embaixadora de Israel esteve em Torres Vedras na sexta-feira, dia 23 de junho, onde efetuou uma visita ao património judaico da cidade.

Após o almoço na Taberna 22, Tzipora Rimon passou pelo novo posto de turismo, instalado no Edifício dos Paços do Concelho, tendo o périplo prosseguido por locais da zona histórica de Torres Vedras onde a comunidade judaica marcou presença na Idade Média e no início da Idade Moderna, nomeadamente Rua da Cruz, Rua dos Celeiros de Santa Maria e Rua dos Cavaleiros da Espora Dourada.

De facto, a antiga judiaria medieval ainda hoje é perfeitamente reconhecível no espaço urbano de Torres Vedras. Este legado material e imaterial constitui um ativo que o Município pretende agora capitalizar, do ponto de vista turístico. Para tal, foi criado e implementado um circuito cultural no centro histórico, promovendo a memória da cultura judaica.

Essa rota, intitulada “À descoberta das raízes judaicas de Torres Vedras”, visa orientar os visitantes do centro histórico, facultando informações sobre locais cuja memória está associada à antiga judiaria, constituindo um estímulo a uma fruição diferenciada do núcleo urbano antigo de Torres Vedras.

A visita da embaixadora de Israel a Torres Vedras teve o seu corolário com a passagem pelo recém-inaugurado centro interpretativo da presença da comunidade judaica.

Aí é explicado que “as origens da presença judaica em Torres Vedras perdem-se no tempo. Contudo, em meados do séc. XIII existia já uma importante comunidade, que foi florescendo ao longo dos séculos seguintes. Entre os seus membros, destacam-se algumas famílias, como a dos Guedelha, com ligações ao arrabiado-mor e à Corte, nomeadamente a figura do rabi-mor D. Judas Guedelha, fundador da sinagoga grande de Lisboa (1307). Outros judeus torrienses foram grandes proprietários rurais, rendeiros, comerciantes ou financeiros.

A Judiaria, que se desenvolvia em redor da sinagoga (localizada na atual Rua dos Celeiros de Santa Maria), é referida pela primeira vez em 1322. No bairro judaico viviam, em 1381, 25 famílias (10% da população), mas o crescimento da comunidade, nos anos seguintes, levou ao pedido de avanço da porta da judiaria (1469). Na vila, os membros da comunidade judaica dedicavam-se aos ofícios mecânicos e ao comércio, que registava uma dinâmica assinalável. Registam-se, também, as referências a um cirurgião e ao copista Joseph ben Guedelha Franco que, no início do século XV, incluiu Torres Vedras no importante movimento nacional de produção de livros manuscritos hebraicos.

Após 1496, com o decreto de expulsão e a conversão forçada, o destino dos judeus torrienses repartiu-se entre a integração na sociedade cristã e os caminhos da fuga e da diáspora. O espaço da judiaria foi apropriado pela comunidade cristã: a sinagoga foi reconvertida em celeiros da Colegiada da Igreja de Santa Maria – que deram nome à rua – e, à porta do antigo templo judaico, foi erguido um passo processional, marcando o percurso ritual da procissão do Senhor dos Passos”.

De referir a este propósito que fruto do silêncio a que a temática esteve sujeita durante séculos, os primeiros estudos sobre a presença judaica em Torres Vedras contam não mais de três décadas. Mais recentemente, sofreram uma relevante intensificação, existindo um número razoável de trabalhos científicos a testemunhar a presença da comunidade judaica no concelho. Essa informação foi agora revisitada, compilada, selecionada, reinterpretada e trabalhada, para apresentação, pela primeira vez, a um vasto público não especializado, particularmente aos torrienses, que continuam, em grande medida, a desconhecer a passagem desta comunidade pelos locais que frequentam quotidianamente. A pesquisa documental foi acompanhada de uma recolha iconográfica, tendo-se recorrido, igualmente, à ilustração, para melhor documentar os espaços e as vivências próprias da comunidade judaica. Este trabalho teve o acompanhamento científico da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste», da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Aquele centro de interpretação pretende dar a conhecer a história, quase invisível, dos judeus no território de Torres Vedras, em especial o quotidiano da sua judiaria, bem como o património que lhe está associado, enquanto património torriense. As histórias de vida dos membros da comunidade judaica são igualmente abordadas nesse equipamento na perspetiva da sua condição de cidadãos torrienses, com as suas particularidades culturais e religiosas. Os conteúdos do mesmo, organizados em blocos temáticos, foram construídos com uma preocupação educativa, privilegiando o rigor histórico e valorizando, simultaneamente, a fruição, a imaginação e a participação do público, procurando contribuir para uma agradável experiência de visita.

De referir que o centro interpretativo da presença judaica em Torres Vedras e a rota “À descoberta das raízes judaicas de Torres Vedras” integram-se no projeto Rotas de Sefarad: Valorização da Identidade Judaica Portuguesa no Diálogo Interculturas, dinamizado pela Rede de Judiarias de Portugal, de que Torres Vedras é membro, tendo a sua concretização resultado de um financiamento do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu.