Torres Vedras

Cartas do príncipe D. João

14.01.2022

Fotografia das Cartas do príncipe D. João

No início do século XIX, o juiz, os vereadores e o procurador da Câmara da vila de Torres Vedras receberam dois documentos escritos no Palácio de Queluz, residência oficial do príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI) e da sua esposa D. Carlota Joaquina. Nesses documentos, datados de 4 de julho de 1801 e de 26 de outubro de 1802 e assinados pelo Príncipe, são anunciados os nascimentos de D. Isabel Maria e de D. Miguel, dois dos nove filhos do casal e que viriam a ter um papel fundamental na história do país: a infanta foi regente durante dois anos e o infante foi o vigésimo nono rei de Portugal.

No primeiro documento, D. João anuncia que a sua “muito amada e prezada mulher deu à luz no dia de hoje com feliz sucesso” e, certo que estava da alegria que os seus vassalos iriam sentir com o nascimento da infanta, pede-lhes que “festejeis com aquelas demonstrações de aplauso e de contentamento que são de costume em semelhantes ocasiões”.

A 7 de julho, a vereação, o juiz presidente e mais oficiais da Câmara torriense reuniram-se nos Paços do Concelho da vila, onde abriram a carta régia, que foi transcrita para o livro de acórdãos, juntamente com a deliberação de se fazerem as diligências necessárias (que não são especificadas) para transmitir a feliz notícia aos moradores da vila.

No entanto, sabe-se que devido ao luto pelo falecimento, a 11 de junho, do pequeno infante e herdeiro do trono, D. Francisco António Pio, e às consequências do conflito militar vivido com a Espanha e a França (a Guerra das Laranjas), não existiram grandes manifestações de júbilo no país, além das cerimónias da Igreja e, provavelmente, o mesmo terá acontecido em Torres Vedras.

Um ano e três meses depois nasceu o infante D. Miguel, que viria a ser rei entre 1828 e 1834. Durante três dias houve fogo de artifício, repiques de sinos, iluminações, salvas militares, Te Deum, missa e beija-mão e as demonstrações de alegria foram muito diferentes das que tinham sucedido com a infanta. Todavia, o conteúdo do documento recebido pela Câmara de Torres Vedras é muito semelhante, tendo sido deliberado, em reunião de 28 de outubro de 1802, que se passasse o anúncio do nascimento em Edital e que se acendessem as luminárias.

Tanto os documentos, como os livros de acórdãos, onde eram registados os assuntos apreciados e as decisões e deliberações das reuniões de Câmara, poderão ser consultados no Arquivo Municipal de Torres Vedras. Por fim, para complementar o estudo sobre o nascimento dos dois infantes, aconselha-se a leitura do artigo Os Nascimentos dos Infantes D. Isabel Maria (1801) e D. Miguel (1802), da autoria de Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves, disponível na Biblioteca digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Fundo: Câmara Municipal de Torres Vedras
Série: Correspondência Real
Título: Carta do príncipe D. João a anunciar o nascimento da sua filha, infanta Isabel Maria, em julho de 1801; e Carta do príncipe D. João a anunciar o nascimento do seu filho, D. Miguel, em outubro de 1802.
Datas extremas: 1801 - 1802
Dimensão e suporte: 2 capilhas; papel
Cota: cx. 86, n.º 3 e n.º 4

Paula Correia da Silva

Publicado: 14.01.2022 - 11:40 horas
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