Torres Vedras

Alfeiria. Uma escola que nasceu das mãos de três mulheres

29.10.2020

Fotografia da fachada da Escola de Alfeiria aos dias de hoje.

No início da década de 80, durante uma visita a Alfeiria, o então presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Alberto Avelino, tomou conhecimento das necessidades de um jovem com mobilidade condicionada. “A mãe ia todos os dias com ele para São Domingos [de Carmões] a empurrar a cadeira de rodas ou então de carroça”, conta Cacilda Camarão, uma das três mulheres que estão na origem da Escola de Alfeiria.

A Cacilda juntaram-se Estefânia Caseirito e Ana Alves, que compreendiam a necessidade deste equipamento. Afinal, com a população a crescer, a construção de uma escola permitia evitar as viagens até São Domingos de Carmões ou Bulegueira.

Começaram por procurar um terreno onde a escola pudesse vir a ser construída. “Andámos a pedir porta a porta se nos ajudavam a arranjar dinheiro para comprar o terreno. Andámos em Alfeiria, no Braçal e na Maceira. E as pessoas, consoante as suas posses, ajudavam. Mas o senhor José não quis nada pelo terreno” lembra Ana, contando que o terreno foi oferecido por este homem da terra.

Com o terreno e a “luz verde” da Câmara Municipal, não tardaram a dar forma à escola. “Até a minha mãe, quando vinha a minha casa, vinha ajudar-me a descarregar a camioneta” que trazia os tijolos, conta Estefânia. Na altura, o empenho e a dedicação destas três mulheres que a vida juntou não convencia toda a gente. Ana ainda recorda as “pessoas que disseram que isto era trabalho para homens, não para mulheres, e que não íamos conseguir.” Mesmo quando iam até à Câmara Municipal, “as pessoas admiravam-se por serem mulheres. Porque naquela altura, os homens é que estavam sempre à frente.”

A Escola de Alfeiria havia de ser inaugurada em setembro de 1981. Apesar do trabalho e de, muitas vezes, verem a sua vida pessoal sacrificada, Cacilda, Estefânia e Ana não têm dúvidas de que valeu a pena. Estefânia acha mesmo que “foi uma maravilha para toda a gente”, recordando as várias gerações de crianças que passaram pelos bancos daquela escola. “Os miúdos davam-se muito bem aqui.” Cacilda partilha a mesma opinião: “A melhor coisa que me podia ter acontecido, naquela altura, foi a inauguração da escola.”

Depois de ter sido desativada enquanto estabelecimento de ensino, a antiga escola de Alfeiria chegou a acolher atividades da população sénior. Em 2020, as três mulheres voltaram a subir a Rua da Escola. Juntas, entraram num espaço renovado, mas que mantém a sua identidade. “É bom lembrar os velhos tempos”, escreveu Ana no quadro de ardósia, num espaço que agora alberga as RAMA – Residências Artísticas Maceira Alfeiria.

“É bom para a nossa terra e para nós.” A opinião de Estefânia é partilhada por todas, ao perceberem que a escola que ajudaram a erguer vai continuar a servir a comunidade, desta vez no campo das artes, da cultura e da sustentabilidade. “Não estou nada arrependida. E tenho muito orgulho daquilo que fizemos” partilha Cacilda. Ana conclui: “É uma coisa que nem dá para explicar aquilo que a gente sente.”


Rita Santos

Última atualização: 29.10.2020 - 15:31 horas
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