Torres Vedras

Pe. José Manuel Silva

01.01.2013

O Padre José Manuel da Silva é um torriense que praticamente dispensa apresentações. Nado e criado em Torres Vedras, prior desde os anos 70 em várias paróquias do concelho, acompanhou o crescimento do mesmo, intervindo nesse processo não apenas como sacerdote, mas também mediante uma cidadania ativa. Pouco tempo depois de ter recebido a medalha de mérito municipal de grau ouro na recente Sessão Solene do Feriado Municipal, concedeu à [Torres Vedras] uma entrevista em que abordou temas como o seu percurso de vida, a evolução e a realidade do concelho, do país, da Igreja Católica e do mundo ou o futuro da Humanidade. Os difíceis momentos que se vivem em Portugal e na Europa são, segundo o Padre José Manuel, todavia, algo de positivo que está a acontecer…  

 

Para começar a nossa conversa, gostava que falasse um pouco sobre a sua infância e o seu discernimento vocacional…

Bom, a minha infância e adolescência em Torres Vedras foi como a de todos. Éramos um grupo muito jeitoso, era colega do Mário Campos, que mais tarde foi futebolista da Académica e agora é médico em Coimbra, do D. Manuel Clemente, hoje bispo do Porto, e de outros que andávamos pela zona do Largo do Grilo, da Praça da Batata e do Castelo. Foi uma infância normal. Os meus pais eram da Ação Católica Operária e foi a partir daí, num ambiente familiar, que surgiu a perspetiva de ser padre. Depois, fui para os seminários de Santarém, Almada e Olivais. E a dado momento fui convidado pelo bispo-eleito de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, para com mais quatro colegas, ir para Moçambique…

 

Como foi essa experiência em África?

Estive lá durante cinco anos, era para ir só por três mas fiquei por cinco. Isso como seminarista. Só me fiz padre depois de sair de Nampula, mas unido a essa diocese, quando estive em Roma. Foi uma experiência extraordinária. Passei um ano como secretário-geral da diocese de Nampula ao mesmo tempo que era professor. Depois estive com mais quatro padres na fundação do Centro Catequético do Anchilo. Fui o fundador e primeiro diretor da revista Vida Nova. Devo salientar que estas duas entidades foram das poucas que durante o período do marxismo moçambicano, em Nampula, não foram nacionalizadas e que se mantem. Nampula não ficava em zona de conflito, apesar de estar no norte de Moçambique, aliás, era onde estava o quartel-general das forças portuguesas. As pessoas faziam uma vida perfeitamente normal, apesar de já se sentir alguma tensão política. Estive depois um ano como professor de português na Escola de Artes e Ofícios em Carapira. Mas entretanto o ambiente em torno do bispo de Nampula começou a aquecer, nessa altura, no início da década de 70, e tinha duas hipóteses: ou regressava a Portugal ou ia licenciar-me em Roma. E optei por esta última situação.

 

Foram bons os anos em Itália?

Foi extraordinário. Fui entretanto o primeiro português a entrar no Pontifício Colégio Urbaniano da Propaganda Fidei, embora tenha entrado como moçambicano. Depois, licenciei-me em teologia na Universidade Pontifícia Urbaniana. Nessa altura estive num colégio com elementos de 44 nações e eu era o único português e o único a falar português. Dava-me muito bem com um grupo de mexicanos, também com colegas do Bangladesh, da Índia, do Paquistão, do Quénia e da África Ocidental, sendo que alguns deles hoje são bispos. Foram anos de muita procura, muito estudo, muita profundidade. Aproveitei também a oportunidade de estar em Roma para fazer dois diplomas no Arquivo Secreto do Vaticano e depois no Instituto de Arqueologia Cristã.

 

E não quer revelar em primeira mão alguns dos segredos dos arquivos secretos do Vaticano (risos)?

Os arquivos secretos do Vaticano não são nada de especial. É mais o mito à volta deles do que outra coisa… A palavra secreto não quer dizer que haja coisas secretas no sentido em que nós usamos, não é “top secret”. É secreto porque tem coisas reservadas, reservado no sentido de não se usar muito para não se estragar. Não há nada a esconder, não há nada mais transparente do que aquilo que lá está. Aliás, recentemente foram expostas um conjunto de coisas desse aquivo, que as pessoas pensavam que eram ultra-secretas, mas que afinal toda a gente sabia que existiam: desde as cartas que os nobres ingleses escreveram ao Papa a pedir-lhe para repensar a excomunhão ao Henrique VIII, até ao processo dos Templários que são uma série de quilómetros de papel…

 

E depois de Roma?

Bom, aconteceu um percalço. Quando se deu a independência das colónias portuguesas estava em Roma, e o meu destino seria Nampula. A Santa Sé deu-me um bilhete de avião para Moçambique com passagem por Lisboa, onde deveria estar durante quatro meses com a minha família. Mas entretanto o governo moçambicano decretou uma lei que proibia a entrada no país de portugueses, mesmo de retorno. Chateei-me, mandei o bilhete de avião para trás, e disse que só ia para Moçambique mais tarde. Entretanto fui ordenado presbítero, o padre Joaquim Maria de Sousa adoeceu, a Carvoeira e S. Domingos de Carmões deixaram de poder contar com ele, e tornei-me substituto interino nessas paróquias. Passou-se um ano, entretanto D. António Marcelino pediu-me para ajudar na direção do jornal Badaladas, desvinculei-me da Diocese de Nampula e assim fiquei nas paróquias da cidade de Torres Vedras durante 21 anos.

 

Como vê a atual situação de Moçambique? Tem condições para sair do difícil contexto de pobreza  em que se encontra?

Sim, acho que Moçambique vai sair do buraco onde está. Mas temos de ter consciência que os países africanos são fabricados por nós, europeus. O problema é a diversidade étnica que existe nesses países, pois cada um, como é o caso de Moçambique, é composto por diferentes povos.

 

Mas voltando à sua atividade pastoral em Portugal, como prosseguiu?

Bem. Em 1988 fui para a paróquia de Matacães, acumulando com as paróquias de Torres Vedras. Entretanto em 91 acumulei também a paróquia de Monte Redondo. E assim fiquei até ao ano 2000. Em 2000 tornei-me também prior de Runa e deixei as paróquias da cidade. Ao longo do meu percurso pastoral fui também acompanhando os grupos de jovens, o Lar de S. José e fui Capelão do Centro de Apoio Social de Runa. Atualmente colaboro com o prior de Matacães, de Monte Redondo, do Maxial e do Ramalhal. Em termos de nomeações canónicas sou capelão do Hospital do Barro e do Lar da Misericórdia de Torres.

 

E que balanço faz dessas décadas de trabalho pastoral que coincidiram ser no seu concelho?

Foi muito bom. Primeiro, vivia num ambiente que conhecia, porque estava com pessoas que tinham crescido comigo, era um ambiente todo ele muito familiar, não tive dificuldade nenhuma nos anos em que estive por Torres Vedras. Depois, ter ido para as aldeias também foi fácil, embora fosse um ambiente rural, e eu vinha de ambientes urbanos.

Entretanto colaborei também em diversas organizações centrais do Patriarcado como o setor de comunicação e cultura com o Padre Jardim Gonçalves.

 

Teve portanto uma intervenção relevante na área da comunicação social ao longo do seu percurso…

Sim, para além do que já referi, fui diretor do jornal Badaladas, tentando fazer com que as fronteiras do mesmo não se limitassem à região. Entretanto em 78 o jornal candidatou-se à associação de imprensa não diária e na altura fiquei na direção dessa entidade, o que aconteceu até 99. Também por intermédio do jornal Badaladas estive na origem do centro de formação para jornalistas e estive ainda no conselho orientador da Lusa. Estive também na origem da primeira rádio pirata em Torres Vedras, criando a cooperativa Rumor. Além disso, fui colaborador da Rádio Renascença, do jornal O Século, do Diário de Noticias, da Capital, do Diário de Lisboa, entre outros.

 

E de onde veio esse seu interesse pela comunicação social?

Bem, no fundo era um “bichinho” que sempre tive cá dentro. Desde miúdo fazia parte da “entourage” do Padre Joaquim Maria de Sousa e foi com ele que comecei a fazer jornalismo. Lembro-me que quando tinha 14 anos ele mandou-me fazer uma reportagem sobre uma visita do ministro das corporações ao concelho, e deixou-me sozinho no jantar no Lar Militar de Runa. Também não me deixaria sozinho se achasse que não era capaz de fazer o trabalho... Já quando estava no seminário dos Olivais estive durante 4 anos nos corpos da revista Novellae Olivarum. É também interessante referir que mais tarde, em Itália, integrei o corpo editorial do Il Messagero de Santo António, do qual fazia parte o cardeal Lucciani, que era patriarca de Veneza, mais tarde Papa João Paulo I…

 

E teve também uma forte intervenção na vida associativa de Torres Vedras…

Regressei a Portugal no calor do 25 de abril, o meu espírito de cidadania não me deixava estar quieto, e assim juntei-me a outros para fundar a Associação de Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras. Também estive na fundação do núcleo de escuteiros de Torres Vedras, da APECI, da Associação de Valorização Agrária - a partir da qual se criou a escola agrícola de Runa -, da Escola de Música Luis António Maldonado Rodrigues e da Agência de Desenvolvimento da Região Oeste. Fui ainda membro da Comissão Municipal de Arqueologia de Torres Vedras e da comissão instaladora dos Serviços Sociais de Saúde de Torres Vedras, presidente do Conselho Municipal de Torres Vedras e vice-presidente do Centro Social e Paroquial de Torres Vedras. Isso para além de estar ligado aos bombeiros locais e nacionais. A título de curiosidade devo referir que sou o eleitor n.º 1 da Freguesia de S. Pedro e Santiago.

 

Torres Vedras tem sido uma terra de muitas vocações religiosas. O que está, para si, na base dessa situação?

Isso tem a ver com as raízes profundas do ser torriense. O torriense tem por norma raízes de fé. E portanto é normal que das famílias torrienses surjam sacerdotes. No concelho atualmente somos 33 para além de diáconos permanentes. Aliás, a ideia de reunir os padres torrienses no Dia de S. Gonçalo partiu de mim.

 

Como vê a Igreja Católica neste início do 3.º Milénio?

A Igreja hoje faz efetivamente aquilo que tem de fazer, ou seja, transmitir o Evangelho nas realidades humanas, que é essa a sua missão...

 

E como vê o futuro da Humanidade?

Vejo muito bem. Isto está cada vez melhor… (risos) Se olharmos para trás, e não é preciso recuar mais de 100 anos, vemos que a sociedade está a evoluir muito positivamente. Infelizmente, e também devido à informação que nos chega dos meios de comunicação social, e por uma tendência péssima, damos mais valor a tudo o quanto é mau. Só olhamos para o que é mau e não damos relevo ao que é bom…

 

Relativamente à intervenção dos cristãos na vida social e política, considera-a atualmente positiva?

Eu acho que sim. Ser cristão é o ser discreto. Não é preciso andarmos a tocar o sino para fazermos as coisas. Agora, o que a Igreja procura é não ter partidos. É é dentro da sociedade e das instituições que se deve procurar criar um ambiente favorável à implementação da doutrina social da Igreja. E isso passa por uma coisa muito simples: é dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus e dar cultura e saúde, e a Igreja está presente nisso tudo.

A talhe de foice, gostava de referir que o atual problema dos europeus é que vivem tudo da barriga para baixo, sexo e economia, quando há coisas mais importantes da barriga para cima. E como se tem visto, a economia é uma ciência bastante relativa…

 

E como é atualmente a relação da Igreja Católica com as forças tradicionalmente anticlericais como a Maçonaria e os partidos de cariz comunista?

O problema não é da Igreja, o problema é deles com a Igreja. A Igreja aceita toda a gente…

 

Não acha que estamos a caminhar para uma sociedade mais tolerante e de harmonização das diversas correntes?

Sim, por isso é que disse que acredito no futuro…

 

Como tem visto a evolução do concelho?

Muito positiva. Embora tenha havido um problema que se mantém e que foi geral, que foi o abandono da agricultura, e depois precisamente por isso transformamos o meio rural num meio urbano.

Mas vejo uma evolução muito positiva na cultura, tivemos presidentes de câmara extraordinariamente cultos, e o atual tem investido de forma especial nessa área. E quando há cultura há desenvolvimento, o contrário é que não. Depois, as vias de comunicação melhoraram relativamente. O dinheiro é que não é muito. Em termos de ensino, penso que neste momento todo o concelho tem a cobertura e a capacidade adequadas. Vejo muita dedicação da parte dos professores e dos corpos docentes. A saúde também está bem ao nível estatal e particular. Penso que a nível económico e financeiro as pessoas de uma forma geral sabem-se equilibrar. Além disso, Torres Vedras tem também uma grande vantagem relacionada com a raiz torriense: somos muito solidários e conscientemente cidadãos. E devido à solidariedade tem havido a capacidade de fazer muita coisa prescindindo da intervenção do Estado. E para isso basta olhar para a quantidade impressionante de associações que existem no concelho. E quando se gera o associativismo, atrás vem o voluntariado.

 

E como vê o atual momento que atravessa o país?

Vejo muito positivamente tudo o que está a acontecer. Porque andávamos todos numa ilusão, nas nuvens, e a viver daquilo que não tínhamos. E isso não tem a ver com os governos. Não andávamos com os pés na terra. E isso desde abandonar o mar e a agricultura, para ir fazer não sei o quê… Sair desta situação implicará sacrifícios e trabalho, mas mais ano menos ano temos todas as hipóteses de voltarmos a ser um país normal.

 

E como encara o seu futuro?

Quero continuar a fazer tudo aquilo que tenho feito. Nunca me arrependi da minha opção de vida. Já não tenho 30 anos mas não é pelos anos que tenho que me sinto diminuído…

 

Gostaria de deixar alguma mensagem aos leitores da [Torres Vedras]?

Gostaria que nós, torrienses, fizéssemos cada vez mais por ser aquilo que somos, por mantermos as nossas raízes, porque o nosso problema, portugueses e europeus, é que cortamos as nossas raízes e uma árvore desenraizada é uma árvore seca. É preciso regar as nossas raízes com todas as nossas capacidades…

Entrevista extraída da edição nº12 (janeiro/fevereiro de 2013) da revista municipal [Torres Vedras]