Torres Vedras

O outro que era eu

01.05.2016

  • Autoria: Carla Rebelo
  • Localização: Paços – Galeria Municipal de Torres Vedras
  • Data de realização: 2010
  • Material: Madeira 200x250x40cm

 

“Dois assentos situados à mesma altura estão unidos por uma estrutura que, ao imitar, por repetição, a estrutura de estabilidade das pernas das cadeiras convencionais, sugere, também, um escadote. A peça desenvolve-se em meia-lua, numa semicircunferência cujo ponto de equilíbrio é, em rigor, o que mantém cada um dos assentos, situados nas duas extremidades, nivelados. Trata-se de uma dupla cadeira, metáfora da artista para a «relação perfeita», pois estes assentos enfrentam-se, evocam um par dialogante e frontal e, ao menor toque, toda a estrutura oscila com um balouçar que os faz subir e descer à vez, sempre equidistantes, sempre de frente um para o outro.

Esta escultura remete inevitavelmente para o objecto lúdico de infância: o balouço para duas pessoas, que oscila com o peso, será sempre um dispositivo pedagógico e fonte de prazer. Proporciona uma experiência da ordem da física onde o peso, o volume, o equilíbrio e a quantidade interagem na brincadeira. Se a escada é acesso, aqui é o acesso ao outro. A escultura é a da(s) figura(s) ausentes. Instalada com grande sentido cénico, a peça projecta uma sombra, duplicação planificada do objecto.

O «mais um» de uma aparente repetição em sombra é, aqui, confirmação de uma nova entidade com características próprias: um «outro» assombrado ou especular que acompanha sempre a peça escultórica, para a completar, unificar e/ou transfigurar. Também o título acrescenta uma dimensão, produtiva de uma sombra «psicológica» sobre o «outro». É a sombra do próprio «eu», de um «eu» que é, também, projecção especular.

Desta forma, a artista formula um jogo de abismos a partir da sombra, duplicando-a real e virtualmente, tornando-a metáfora de projecção especular, (re)dimensionando-lhe os contornos numa oscilação que vai do próprio ao «outro».  O jogo de sombras, convocado pela artista, flutua entre identidade e alteridade e é este o movimento que lhe concede um sentido inteiro.” 

Margarida Prieto

Carla Rebelo

Vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Escultura pela FBAUL (2000). Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian (2010/11).

Das suas exposições individuais destacam-se:

  • "O destino seguia-nos o rastro como um louco com uma navalha na mão", Museu Nogueira da Silva, Braga (2015);
  • “Um movimento quase imperceptível que tem a ver com o voo”, Galeria Monumental, Lisboa (2014); 
  • "Desenhos na Sombra", Espaços do Desenho, Fábrica Braço de Prata, Lisboa (2011); 
  • "O Outro lado", Paços -  Galeria Municipal, Torres Vedras (2010).

Das suas exposições colectivas destacam-se: 

  • "Periplos", Arte Portuguesa de hoje, CAC, Málaga, Espanha;
  • "Dibujando con Números", Centro Cultural Providencia, Santiago do Chile, Chile (2015);
  • "Kronstadt Stories", Museu de História de São Petersburgo, Rússia (2014);
  • "Parérgon", Paços- Galeria Municipal, Torres Vedras (2013); 
  • "I would prefer not to", Plataforma Revólver, Lisboa (2012); 
  • "3 en el 3º", FelipaManuela + Columpio, Madrid (2012);
  • "Entre dois tempos", parte 2, Galeria Arte Contempo, Lisboa (2011)