Torres Vedras

Entrevista ao cónego Daniel Henriques

03.05.2018

Daniel Henriques é há cerca de um ano e meio pároco e vigário de Torres Vedras. Recentemente a Vigararia de Torres Vedras recebeu uma visita pastoral do Patriarcado, que veio ao concelho, por meio dos seus bispos, conhecer a realidade material e espiritual das respetivas comunidades. A partir desta visita a [Torres Vedras] esteve à conversa com o cónego Daniel Henriques, que abordou outras questões como o seu percurso, a experiência que está a viver em Torres Vedras e o atual momento da Igreja e do mundo. Daniel Henriques está convicto que Deus nunca desistirá do Homem, mostrando-se, no entanto, também certo que cultivar o Bem no mundo é um trabalho árduo que tem de ser constante…

 

 

Começava por perguntar ao padre Daniel que balanço faz desta recente visita pastoral realizada pelo senhor Patriarca à Vigararia de Torres Vedras, de que é coordenador pastoral?

Em relação a esta visita pastoral, esperemos que a avaliação possa ir sendo feita ao longo dos anos, porque os frutos não são logo imediatos. Para mim também foi um desafio grande, ainda para mais logo no início da minha entrada na Paróquia, passado um ano, quando foi comunicado que uma das visitas pastorais do ano seria em Torres Vedras. A visita pastoral é algo que está previsto no código de Direito Canónico: os bispos do mundo inteiro devem regularmente visitar as paróquias e, neste caso, o senhor Patriarca também com os seus bispos auxiliares. Têm sido duas visitas pastorais na diocese por ano, o que demora sempre 2/3 meses. Na visita pastoral o senhor patriarca teve um conjunto de encontros por grupos temáticos, e os bispos auxiliares, D. Joaquim e D. Nuno, percorreram todas as paróquias da Vigararia que corresponde às freguesias do Concelho e também Vimeiro que pertence ao Concelho da Lourinhã. Entretanto cada pároco organizou na sua própria paróquia a visita pastoral com um dos bispos auxiliares. A avaliação que eu faço desde já é que foi muito rica, muito útil. A visita pastoral tem duas dimensões. Uma é o bispo conhecer melhor a realidade das comunidades, e que não é apenas a realidade eclesial, dos cristãos e dos grupos paroquiais, mas a própria realidade humana. E a outra é também que o bispo venha dar uma palavra de ânimo, de alento, de exortação, de formação, aos diocesanos. Foi muito rico, de facto, eles foram muito bem acolhidos, quer nas instituições, quer nos próprios grupos paroquiais.

 

Como vê a realidade da Vigararia de forma pessoal em relação às suas necessidades materiais e espirituais? Como poderá fazer a caracterização da mesma?

A Vigararia de Torres Vedras é constituída por 20 paróquias com realidades bastante díspares, urbana e rurais, tem um clero com uma média etária mais baixa um bocadinho do que o normal, portanto, tem alguns padres mais novos. Todos ou quase todos têm várias paróquias, o que torna o tempo às vezes um bocadinho escasso para o que se pretendia fazer. O que eu noto, embora não esteja aqui há muito tempo e também tenha de conhecer melhor a minha própria paróquia, é que são comunidades dinâmicas, vivas, algumas bastante envelhecidas em termos de idades porque a própria população está envelhecida, mas vê-se que são comunidades muito trabalhadas em termos de Igreja, em termos de Fé. Há aqui um desafio grande sobre as novas gerações em que há também uma presença de evangelização que deve ser feita e que de facto se está a fazer mas que se devia fazer de forma mais empenhada, chegar a estas crianças e jovens, e a população de Torres Vedras é de facto jovem mesmo assim, porque não estamos numa zona desertificada e envelhecida no geral.

 

Como tem sido a sua experiência à frente da Paróquia de Torres Vedras de há cerca de um ano e meio para cá? Pode fazer já um primeiro balanço?

Tem sido uma agradável surpresa em vários âmbitos. Primeiro, porque é de facto uma terra com uma grande vitalidade cultural, desportiva, de associações, de instituições, muito ativas, muito dinâmicas, as pessoas participam de facto muito, com uma relação muito boa com a Igreja, as coisas estão de facto muito entrosadas. Primeiro de tudo porque há lá cristãos, uma relação muito boa, também muito desafiante no que deve ser a Igreja, enfim, também uma intenção de fazer chegar a Boa Nova do Evangelho a toda a parte. Tem sido para mim uma agradável surpresa pela qualidade de tudo o que se faz aqui, em vários âmbitos. Mas as instituições têm-me impressionado muito, com muitos anos, com um passado venerável, mas um presente muito ativo e muito dinâmico.

 

Torres Vedras foi também sempre uma terra de muitas vocações religiosas. Como vê a atual situação de Torres Vedras e da Igreja em geral em relação a esta temática?

A questão das vocações é uma questão muito séria e até grave em toda a Europa, não é só cá, porque as vocações a nível mundial estão a crescer, mas na Europa já há bastante tempo têm vindo a decair muito. E de facto Torres Vedras era uma zona em que surgiram muitas vocações, concretamente pelos franciscanos, com uma presença muito forte da comunidade franciscana, histórica, secular, e atualmente, de facto, são muito escassas as vocações. Uma das origens desta situação é porque não havendo pessoas também não há vocações consagradas. Ou seja, hoje em dia temos famílias com um filho único e muitas vezes criando-se muitas expetativas no futuro daquele filho acaba por se afastar o mesmo da vida religiosa. Pode haver muitas razões, mas acima de tudo tem a ver com o lugar que afeta na vida das pessoas, porque a vocação não é como se escolhe uma profissão.

 

Como tem sido esta experiência do senhor padre e que é comum aos presbíteros hoje em dia que é gerir todo um conjunto de entidades ligadas a uma paróquia…

De facto, estamos metidos em tanta coisa, são tantas as nossas incumbências, que às vezes não conseguimos dedicar-nos inteiramente ao que é o específico da missão dos padres. Agora, eu já senti muito mais esse peso porque concretamente nas paróquias onde estive sempre tive de andar a construir igrejas novas. Aqui em Torres também, durante muitos anos, este centro pastoral consumiu muito os párocos que aqui estavam. Portanto, uma coisa é gerir uma instituição, outra coisa é fazer edificados, às vezes consome muito mais. Mas depende também muito das equipas que se tem. Eu devo dizer que aqui não está a ser nada difícil. Como há equipas que trabalham muito bem, estão muito bem coordenadas, têm uma relação muito boa também com o pároco, as coisas funcionam relativamente bem.

 

Um dos trabalhos que já supervisionou ao longo deste período em que tem estado em Torres Vedras foi a reabilitação exterior de algumas igrejas e a reabertura à comunidade da Igreja de Santiago. Tem previstas mais iniciativas para aquele espaço?

Olhe, eu estou um bocadinho fascinado, porque eu nunca tive nada que se pudesse nomear de património. Onde eu estive foi em paróquias suburbanas, com igrejas novas e agora vejo-me em Torres Vedras, onde a paróquia tem à sua guarda um património fabuloso. Uma coisa de facto muito agradável também aqui é que este património é olhado como algo que é de todos e, portanto, o investimento, o cuidado, é partilhado pela Câmara, pela junta e pela paróquia. Sentimos que estamos todos a cuidar do que é nosso. Há, no entanto, muita coisa a fazer ainda. A Igreja de São Pedro precisa de ser reabilitada. A obra feita foi dentro da nave principal da igreja, mas os telhados laterais estão velhos e a meter água em alguns sítios. Há também o órgão que é fabuloso e que está ainda por restaurar. Em relação a Santiago, tem uma história curiosa. É uma das igrejas históricas paroquiais, Torres Vedras tinha quatro igrejas matrizes, a de Santa Maria, São Miguel, São Pedro e Santiago. São Miguel já não existe, as outras três existem ainda. No século XIX houve a anexação das paróquias, portanto, Santa Maria e São Miguel passaram a ser uma só paróquia e S. Pedro e Santiago também uma só. Neste momento ainda existem as duas paróquias apesar de pastoralmente funcionar como uma só paróquia. Torres Vedras tinha um problema grande que era não ter instalações para as suas atividades pastorais e nos anos 90 o cónego Horácio e o padre João Valente tornaram a Igreja de Santiago um espaço multiusos onde muitas crianças e adolescentes tiveram catequese. O que aconteceu foi que quando o centro pastoral foi feito esse espaço deixou de ter essa utilidade. Estava a tornar-se quase um depósito de coisas velhas e inúteis. Limpamos aquilo tudo com o apoio da junta de freguesia e tornamos o espaço amplo como há muito não estava. Agora, qual é a intenção? Para já, há uma utilização que está a ser feita e essa é cultural. No entanto aquela igreja precisava de um apoio para uma reabilitação interior. A ideia seria restituir à cidade a partir desta igreja uma zona que estava um bocado morta.

 

E há que relembrar e valorizar que Torres Vedras fazia parte dos Caminhos de Santiago. Há algum projeto de reintegrar ou reavivar essa memória?

Eu não tenho nada pensado, mas tenho o desejo de contactar a associação dos Caminhos de Santiago e perceber até que ponto podemos integrar a Igreja de Santiago neste itinerário, ou ser apresentada como tal. Ainda há uns dias estava a ler um livro sobre os Caminhos de Santiago e de facto falava deste percurso e era bom que o espaço fosse mais acessível para quem quer passar por cá. Por vezes aparecem aí até estrangeiros, com a mochila às costas à procura da Igreja de Santiago, lá têm as suas indicações, acho que é de reabilitar.

 

Há pouco falou um pouco do seu percurso, pedia-lhe para fazer uma espécie de revisitação ao mesmo...

Tenho 52 anos, nasci em 1966, sou daqueles que tiveram o privilégio de nascer na cama dos pais, e não no hospital. Somos quatro irmãos, tenho uma irmã que é religiosa, que é da congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, depois tenho um irmão mais novo e uma irmã mais velha, que estão casados e tenho cinco sobrinhos. Somos de uma família tradicionalmente cristã, e curiosamente a minha entrada para o seminário deveu-se em grande parte a um padre muito jovem que tinha acabado de entrar em Santo Isidoro como pároco, tinha só dois anos de padre, que vocês conhecem muito bem, que é o padre Joaquim Pedro, que já na altura estava acompanhado pelo padre Dionísio. Foram eles que me acompanharam, entrei no seminário aos 16 anos, na altura no Seminário de Almada, estive nesse seminário quatro anos, e depois fui para os Olivais. Fui ordenado em 1990, e a primeira nomeação foi novamente no seminário onde tinha estado, em Almada, como membro da equipa formadora, onde fui colega de D. José Augusto Traquina e do padre Joaquim Duarte. Estive lá 7 anos, e em 97 fui nomeado pároco de duas paróquias do concelho de Loures que depois passaram a pertencer ao de Odivelas, que foram Ramada e Famões. Estive aí 8 anos, e em 2005 fui nomeado pároco de Algés e também da Cruz Quebrada um pouco mais tarde, onde estive 11 anos. Entretanto, tive outras missões: fui vigário de Loures e de Oeiras. Até que há um ano e meio, em setembro de 2016, fui então nomeado para Torres Vedras e o ano passado também para Matacães, em outubro.

 

Como vê o envolvimento dos cristãos em termos políticos e sociais neste mundo em mudança tão rápida?

Numa opinião muito pessoal, acho que a primeira missão dos cristãos, dos batizados, não é dentro das sacristias, mas é no mundo em que vivemos, ou seja, quando há um entrincheirar-se, eu penso que há uma infidelidade também àquilo que é a vocação e a missão dos leigos na Igreja. A primeira missão é de facto nas realidades humanas onde vivem, primeiro naturalmente na família, mas também na sociedade. Aqui em Torres Vedras uma coisa que com muito agrado vejo é isso, é que as instituições surgiram de um grande amor à terra, numa consciência cívica, mas também muito na base na consciência de uma missão, de fazer alguma coisa, de ser aí que Cristo também me chama a estar presente. Agora, hoje há uma voragem muito grande das coisas a acontecer, e para nós é um desafio de facto perceber o que se está a fazer, até que ponto se está a edificar a sociedade e se se está a trabalhar pelo Bem e pela dignidade humana ou se está, pelo contrário, a desagregar aspetos que são fundamentais da dignidade humana.

 

Neste alvor do terceiro milénio vemos também um Homem diferente daquele que existiu em outras etapas da História. O indivíduo hoje é muito mais fechado em si, muito mais individualista. Como encara a Igreja esta situação?

Eu penso que temos em nós uma dimensão comunitária. Quando a pessoa se isola está a ir um bocado contranatura. Porque ninguém é uma ilha, quando a pessoa se começa a isolar e a fechar está a autodestruir-se também. Somos pessoa em relação, somos seres de comunidade. Noto que também aqui há muitos sinais de individualismo, mas eu venho de zonas urbanas, nomeadamente da zona de Lisboa, onde notava um fechamento muito maior do que aqui. Eu vejo aqui que as crianças e os jovens praticam desporto, enchem as bandas de música, ou seja, há um desejo muito grande também de participar e há um espírito de fazer coisas com os outros. Mas há sempre aqui um trabalho a ser feito, que começa pelas famílias. Eu noto que aqui em Torres Vedras a realidade familiar tem sido muito fustigada e que há um desagregar muito grande do que é a unidade da família e uma realidade económica às vezes muito difícil também. Aliás, uma diferença que eu noto em relação a de onde vim é que há uma quebra muito acentuada entre duas gerações no que toca a valores, na forma de olhar a própria família. Penso que há aqui um desafio muito grande que é o de trabalhar com as famílias e de restituir à família a centralidade que deve ter numa sociedade.

 

Todavia, consegue ver o futuro com algum otimismo?

Eu não me sinto otimista nem pessimista. Agora, eu acredito que há de facto no íntimo das pessoas, que faz parte da nossa natureza, todo um conjunto de valores, pelo menos de sonhos, de ambições, a partir dos quais as pessoas mais cedo ou mais tarde acabam por se aperceber que devem arrepiar caminho. Por exemplo, em relação à família. Muitas vezes acontece que as pessoas dedicam-se ao trabalho, à sua carreira e depois vão se apercebendo até com o passar dos anos que se calhar estão a fazer uma aposta errada, podem estar a descurar uma aposta mais importante que devem fazer. A mesma coisa com a saúde. E acredito que se isto funciona a nível individual também funciona a nível das famílias e das instituições.

 

E como vê a realidade da própria Igreja neste início de terceiro milénio, com um Papa que está a ter uma recetividade tão boa, que tem uma tão grande popularidade?

Sim, de facto o Papa é uma lufada de ar fresco também na Igreja. Acho que o Papa tem feito um caminho de levar a Igreja a uma conversão à simplicidade. Não é simplificação, é conversão à simplicidade. De facto, o Evangelho é algo extremamente simples, nós complicamos muito, e quanto mais complicamos mais as coisas perdem muitas vezes o seu sentido original. Eu acho que o Papa tem ajudado a distinguir aquilo que é essencial daquilo que não é essencial. Agora, o Papa tem tido uma linguagem muito dura e muito contracorrente. Este Papa não é assim tão bem acolhido quanto isso em tudo o que faz. Por exemplo, uma linguagem que tem sido muito constante no Papa é o acolhimento dos refugiados. Um desafio que lançou foi de que cada comunidade acolhesse uma família de refugiados e o próprio Vaticano acolheu uma, de muçulmanos, e foi criticado por esse facto. Devo dizer a este propósito que a paróquia de Torres Vedras também já recebeu uma família.

 

O Papa tem falado numa espécie de terceira guerra mundial aos bocadinhos. Como vê a crise política e humanitária que existe no Mediterrâneo nomeadamente na Síria? Acha que neste momento a Humanidade corre algum perigo? Deus não irá certamente desistir do Homem…

Claro que não, se Ele quisesse desistir já não existíamos. A questão é mesmo a Liberdade. Foi um risco tremendo que Deus assumiu ao criar-nos assim, mas é um ato de confiança também. Isto é como os pais em relação aos filhos. Quando os filhos chegam à adolescência os pais têm de discernir se apostam na liberdade ou na segurança, reprimindo a liberdade. Agora, o que eu acho é que estamos num momento muito preocupante. De um momento para o outro o próprio ser humano pode auto aniquilar-se e destruir o planeta. Em determinada altura criou-se um excessivo otimismo em relação ao Bem que há na Humanidade, que há no Homem.  Eu acho que se as pessoas são capazes de fazer muito bem, também são capazes de coisas terríveis. O Homem sem Deus, o que pode fazer, assusta de facto um pouco. Mas também alguém dizia que uma árvore a cair faz muito mais barulho do que uma floresta a crescer e eu acho que há todo um caminho silencioso que quem está empenhado no Bem faz e que é altamente eficaz.

 

Penso que ninguém quer a autodestruição, mas ninguém sabe. É um mistério futuro…

Pois, nós vemos a questão da ecologia. De repente parecia que todos os países tinham tomado uma decisão a nível global e de repente vem um país, um presidente, a dizer que isto é tudo…

 

Uma treta…

Era isso que eu ia dizer mas estava a evitar (risos)…

É bom não desanimarmos, não sermos pessimistas, mas percebermos que o Bem se constrói com muito esforço, muito trabalho e com sacrifício. A própria Natureza é assim.

 

Voltando um pouco aqui à realidade local, perguntava-lhe como vê o futuro de Torres Vedras, que tem também pugnado pelas questões ambientais e ecológicas…

Vejo com muitos bons olhos. Tenho mais facilidade de ver um bom futuro em Torres Vedras do que à escala planetária (riso).

 

A terminar esta entrevista, gostaria de deixar alguma mensagem final aos munícipes, algum repto?

Que saibamos muito trabalhar em comum, não deixarmos criar, embora não se note isso aqui, o espírito de rivalidade entre grupos, entre instituições, percebermos que todos estamos a trabalhar para o mesmo, seja no desporto, seja na cultura, seja na educação, seja também na vida na Fé, que deixemos uma marca boa na dignificação das pessoas, das famílias, da comunidade.