Torres Vedras

Ana Guiomar

02.03.2017

Chegou descontraída ao Teatro Aberto, onde a aguardávamos para a realização da entrevista. Depois de um dia de gravações e antes de subir ao palco, Ana Guiomar contagiou-nos com a sua energia, simpatia e gargalhada fácil.
Natural de Torres Vedras, mais precisamente do Ramalhal, Ana Guiomar tem construído uma sólida carreira como atriz ao longo dos passados 12 anos. Gosta de cozinhar, viajar, adora animais, mas a sua paixão é ser atriz.
A entrevista deu lugar a uma conversa muito fluida, em que falou ainda sobre Torres Vedras, Pasteis de Feijão e Carnaval.

Em 2003 interpretou o papel de Marta na série juvenil “Morangos com Açúcar” e tornou-se conhecida do público. O que mudou na sua vida com esta interpretação?

Estamos aqui no Teatro Aberto, portanto até acho que tem corrido bem. Mas sim, mudou bastante. Foi de 2003 para 2004 que vim fazer um casting a Lisboa. Já tinha feito vários, mas mais ligados a publicidade e coisas pequeninas, mas entretanto, em maio de 2004, surgiu o convite para entrar na série “Morangos com Açúcar” e eu acho que naquela altura nem tinha noção do que é que implicava ou o que era ser atriz. Vi mais como uma experiência e mudou mesmo a minha vida! Agora, passados alguns anos, estou aqui e é isto que eu quero fazer.

E como entrou no mundo da representação?

Foi precisamente na série “Morangos com Açúcar”. Eu tinha-me inscrito já em diversas agências, para fazer algumas coisas, mas mais para ganhar algum dinheiro extra. Depois fiz esse casting em novembro de 2003 e entrei em maio de 2004 e nunca mais parei. Na altura ainda andava na escola, no Externato de Penafirme, entretanto mudei para Torres porque no Externato eram um bocadinho exigentes e não dava para tudo [risos].

Atualmente também está a fazer a novela da SIC, “Amor Maior”, onde interpreta o papel de Maria Preciosa. De todas as personagens que interpretou até hoje, qual foi a que mais a marcou e porquê?

Profissionalmente não consigo escolher uma porque são todas muito diferentes. Eu acho, por exemplo, que a Marta dos “Morangos com Açúcar” foi a que mais me marcou porque foram 3 anos e, para além de ser muito tempo, foi a primeira vez… passei por várias fases: passei pelo medo, passei pela ansiedade, passei pelo “querer fazer isto para sempre”, passei pelo “ser só um hobby”… Foi assim uma montanha russa um bocadinho louca.

Depois há personagens que me marcaram muito. Por exemplo, no “Conta-me como Foi”, uma série de época, a personagem marcou-me porque me obrigou a trabalhar muito, a ler muito, porque era uma época que eu desconhecia e foi uma personagem muito marcante.
Eu gostei de fazer todas, umas mais divertidas outras menos, umas com mais estudo e outras com menos… não consigo mesmo escolher uma! O “Perfeito Coração” também sinto que foi um ponto de viragem, quando interpretei uma cabeleireira que era filha da Ana Nave. Eu consigo escolher pontos de viragem, que me fizeram crescer a nível profissional, que me fizeram ambicionar outras coisas e questionar. Mas a Maria da Luz foi outro ponto de viragem. Gostei muito de interpretar essa personagem.

passei por várias fases: passei pelo medo, passei pela ansiedade, passei pelo “querer fazer isto para sempre”, passei pelo “ser só um hobby”… Foi assim uma montanha russa um bocadinho louca

E leva os “sentimentos” das personagens para casa ou consegue desligar-se bem?

Em Televisão consigo. É mais fácil porque o processo é todo mais rápido. Só naqueles primeiros dias de gravações é que andamos um bocado mais ansiosos por não conhecemos com quem vamos contracenar. Em Teatro é um pouco diferente. Eu no Teatro já sofro um bocadinho mais. Eu costumo dizer que o Teatro é alta competição, é preciso treinar, treinar, treinar quase até à exaustão. E depois, desde os ensaios até ao último dia de carreira do espetáculo, a personagem não nos sai da cabeça: às vezes sonhamos com ela, às vezes acordamos com o texto, ou estamos a tomar banho e estamos a correr o texto na nossa cabeça. É um processo muito diferente. Portanto, a personagem do Teatro não me sai tanto da cabeça.

A minha próxima pergunta vai nesse sentido. Está atualmente em cena com a Peça “O Pai”, aqui no Teatro Aberto. O que é que o Teatro lhe traz de diferente em relação à Televisão?

Em Teatro demoramos mais tempo, e ainda bem, porque temos tempo para trabalhar todas as palavras e perceber o que o texto quer dizer. Em Televisão é tudo muito mais rápido… São processos mesmo diferentes. Eu gosto dos dois, não consigo escolher um.

Há alturas da minha vida em que me apetece fazer mais televisão, porque me apetece que o processo seja mais rápido ou apetece-me estar mais leve, ou com mais noites livres porque os ensaios também  ocupam bastante tempo. E há alturas em que só me apetece fazer Teatro. É mesmo um trabalho completamente diferente. Em termos de realização não consigo escolher.
Posso dizer que, em termos de Televisão, apetece-me cada vez mais fazer coisas “mais sérias” porque tenho feito papéis mais cómicos e muito mais “leves”, apesar de eu tentar contrariar isso. Em Teatro gostaria de fazer um grande clássico.

Mudando agora um pouco de tema… A Ana tem cerca de 85 mil seguidores no Instagram, na página “Mãe, Já Não Tenho Sopa!” e também lançou um livro com o mesmo título. Como é que surgiu esse “gosto” pela cozinha e pela partilha das suas experiências culinárias?

Eu sempre gostei muito de cozinha e é um sítio onde me lembro de estar sempre em pequena, com a minha avó, com a minha mãe, com a minha madrasta… Lembro-me de estar sempre na cozinha. E gostava de ver. Sempre gostei de comida, de comer, de fazer.
Lembrei-me deste projeto num ano em que estava mais afastada da televisão por opção, porque precisava mesmo de descansar e dedicar-me a coisas mais minhas. Desenvolvi-o em conjunto com a minha agência que me tem apoiado bastante. E entretanto surgiu o livro. As pessoas gostam mesmo de comer e dizem que gostam de saladas e vamos viver bem e não sei mais o quê… e depois? Hummm

Sempre gostei de comida, de comer, de fazer.

Estreou-se o ano passado como apresentadora do “Best Backery - A Melhor Pastelaria”. Como foi a experiência de andar por todo o país a provar o que de melhor se faz em doçaria? Que balanço faz dessa experiência?

Foi uma experiência muito, muito boa. Eu gostei de todos os dias, acordava sempre com um sorriso na cara. Foi muito cansativo porque também estava a gravar a novela e, a dada altura, também no Teatro. Foi mesmo cansativo e eu três coisas ao mesmo tempo nunca mais quero fazer! Nem com muitos doces… porque a energia não vai lá nem com pastéis de nata [risos].
Mas foi muito bom, conheci pessoas incríveis. Tenho muito mais respeito pela nossa pastelaria porque quem faz bem, do início ao fim, tem um trabalho muito difícil. As pessoas são muito postas à prova, a ASAE exige muita coisa, ter um estabelecimento aberto e cumprir as regras todas é muito difícil e eu respeito muito este trabalho.

E também visitou Torres Vedras para experimentar o nosso Pastel de Feijão…

Que eu nunca tinha visto fazer! O segredo que nos foi revelado na altura, que foi o que o Sr. Zé da Milay nos disse, é que há pessoas que moem o feijão separado da amêndoa e eles moem as duas coisas juntas depois de cozido. Será? Ele fez à minha frente, eu comi e estava ótimo.

E como é que consegue conciliar tudo? O Teatro, a Televisão, o gosto pela cozinha, apresentações do programa…

Não é fácil. Já disse que não quero voltar a fazer três coisas ao mesmo tempo, mas entre o programa e a novela, como era para o mesmo canal, eles lá se entenderam. Com o Teatro, já estávamos na parte final do programa e gravávamos mais na zona de Lisboa. Gravávamos nas pastelarias de dia e à noite eu vinha ensaiar. Já o Instagram faço quando tenho tempo e até tem corrido bem.

A Ana tem uma grande paixão por animais e disse, recentemente, numa entrevista ao público “que adora animais, que é sempre muito feliz com animais por perto e que nunca na vida vai deixar de ter bichos”. Há algum projeto também nesta área?

Para já não tenho mesmo nada na manga. Eu adoro animais, mas não sei o que é que poderia trabalhar na área dos animais. Por exemplo, eu adorava ter um hotel para cães, adorava. Mas ao mesmo tempo, sendo dona, acho que é uma responsabilidade enorme e dá-me muito medo. É que eu não deixo o meu cão em nenhum hotel.

O Bart?

Sim, o Bart! [risos]
Como é que eu podia fazer isso? Teria de ter um jacuzzi para cães, só podia ficar com um de cada vez porque tinham de dormir comigo, não sei! Sou um bocado “maluquinha dos animais”, mas não tenho nenhum projeto. Tenho pontualmente algumas associações que gosto de apoiar, mas não há nenhum projeto para já. Acho difícil se não for um projeto solidário com animais, ou uma loja com brinquedos incríveis como eu nunca vi [risos].

Regressando agora um pouco às origens, a Ana é de Torres Vedras. Que recordações tem e que influência teve na estruturação da sua personalidade?

Eu sempre vivi em Torres Vedras e sou muito ligada à zona Oeste ainda hoje. Quase todas as semanas lá vou. Tenho lá os meus avós, os meus pais, a minha família toda.
Memórias… Tenho muito boas memórias porque sempre andei lá na escola, no Externato de Penafirme, que é para mim uma referência e digo sempre que é a melhor escola do país. Tem umas condições incríveis, o ensino é incrível, a exigência… Acho que deveriam existir mais escolas assim, ao alcance de todos. E depois? Adoro Santa Cruz e Santa Rita porque foram as minhas praias de infância; adoro pêras, porque o meu avô sempre teve vinhas e pomares…
E lembro-me de Torres Vedras sempre mais animada do que está agora, o que me causa alguma tristeza. Acho que está pouco dinamizada e deveria estar mais dinamizada a nível cultural, se bem que sei que é difícil desde que há um shopping. Sei que há Teatros que fazem lá criações e até residências artísticas, sei disso tudo, mas acho que temos muitas lojas “forradas” com painéis a fingir que está tudo bem e não está nada bem… Isso deixa-se alguma tristeza e saudade. Perdemos muito o comércio de rua, o comércio tradicional.

Adoro Santa Cruz e Santa Rita porque foram as minhas praias de infância

Ana, que projetos para este ano de 2017?

Então, vou estar até junho ou julho a gravar a novela “Amor Maior”. Depois, quando terminarmos esta peça [“O Pai”], vou fazer outra peça no Teatro Aberto chamada “Toda a Cidade Ardia”, com encenação de Marta Dias e é uma peça baseada em poemas de Alice Vieira, que também é uma memória de infância. Depois, o projeto? Ir de férias em agosto e setembro, que é um bom projeto. Estar no Teatro em outubro e qualquer coisa de Televisão por outubro/novembro, continuar o meu Instagram e muitas visitas a Torres Vedras….

Como passa um dia em Torres Vedras?

Um dia em Torres Vedras… Ora A8, A8 é um clássico. Depois, come-se bem em Torres Vedras. Se for inverno eu aconselho um cozido e há bom cozido em Torres Vedras que eu sei! Continuando, há um sítio muito giro e que eu gosto muito e que é aquele moinho da Silveira que tem pão. Vão ver o mar… regressam e podem ir visitar o castelo de Torres Vedras ou o Forte de São Vicente, aproveitam e passam pelo Jardim (da Graça) para ver o Obelisco que também é uma peça fundamental em Torres Vedras. Podem visitar a Praça que está muito bonita com aquele maravilhoso garrafão da Joana Vasconcelos (…) E podem pegar numa “Agostinha” e ir dar uma volta… Eu sei tudo! [Risos] Se for no Carnaval, têm de ir comer aquela “sandes de cozido” à Praça… e é assim, um dia ótimo! O que é que podem fazer mais? Podem fazer tanta coisa…

Temos qualidade de vida em Torres Vedras?

Muita! Eu acho que um dia ainda vou voltar a morar em Torres.

Gostos pessoais?

Gosto muito de viajar e este ano gostava muito de ir ao Japão em setembro. Já fui à Ásia, mas mais a praias e ilhas, mas este ano gostava muito de ir ao Japão. Depois? Gosto de passear o Bart, gosto de ler um bom livro… Normalmente as pessoas dizem que gostam de ouvir música, mas eu gosto “mais ou menos”. Uma música que me emociona é a música das festas, das bandas filarmónicas. Se eu um dia me casar vou ter uma banda filarmónica.
Ah, em setembro também tenho de ir à festa do Ramalhal, à Festa de Nossa Senhora da Ajuda, com os tradicionais arcos de murta. O ano passado fizeram uma coisa muito gira. Tinham uma banda filarmónica a tocar músicas de bandas sonoras de filmes no coreto.

Este momento foge ao guião da entrevista, mas como já terminámos gostaria, em nome da Câmara Municipal, de lhe oferecer um Kit do Carnaval de Torres Vedras e deixar o convite para a festa da nossa terra.

Muito obrigada. É uma outra memória que tenho porque quando andava na escola em Torres ia sempre desfilar. Tenho fotos inenarráveis. Eu até já fui o Vasco da Gama [Risos].